16.9.15

Ontem te beijei os lábios / Ayer te besé en los labios



Ontem te beijei os lábios.
Beijei-te nos lábios. Densos,
rubros. Foi um beijo tão curto,
que durou mais que um relâmpago,
que um milagre, mais.
O tempo
depois de dar-te o beijo
já não o quis para nada
mais, para nada
o quisera antes.
Começou, acabou-se nele.

Hoje estou beijando um beijo;
estou só com meus lábios.
Ponho-os
não em tua boca, não, não mais
- Para onde me escapou? –.
Ponho-os
no beijo que te dei
ontem, nas bocas juntas
do beijo que se beijaram.
E este beijo dura mais
que o silêncio, que a luz.
Porque já não é uma carne
nem uma boca o que beijo,
​o que escapa, o que me foge.
Não.
Estou beijando-te mais longe.


Ayer te besé en los labios.
Te besé en los labios. Densos,
rojos. Fue un beso tan corto
que duró más que un relámpago,
que un milagro, más.
El tiempo
después de dártelo
no lo quise para nada
ya, para nada
lo había querido antes.
Se empezó, se acabó en él.

Hoy estoy besando un beso;
estoy solo con mis labios.
Los pongo
no en tu boca, no, ya no
—¿adónde se me ha escapado?—.
Los pongo
en el beso que te di
ayer, en las bocas juntas
del beso que se besaron.
Y dura este beso más
que el silencio, que la luz.
Porque ya no es una carne
ni una boca lo que beso,
que se escapa, que me huye.
No.
Te estoy besando más lejos.


In: SALINAS, Pedro. Poesias completas. Madrid: Aguilar, 1961.

Tradução minha.

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