8.4.17

entrevista



revirando os arquivos, encontrei a íntegra da entrevista que o jornalista Bruno Albertim fez comigo para matéria no Jornal do Commercio, de Pernambuco, quando lancei o disco "Presente (Antonio Cicero 70)":

BA: Qual o teu primeiro encontro marcante com a poética de Antonio Cicero?

AN: A primeira pessoa que me falou sobre Antonio Cicero foi um xará dele, amigo do meu pai, tão importante que chamo de "tio", chamado Antônio Maria. Foi a pessoa que me deu de presente um violão, quando eu tinha 13 anos, e com quem costumava encontrar para cantar, tocar e ouvir música. Em uma tarde na casa dele em Mosqueiro, uma ilha perto de Belém, o Antônio botou um LP da Marina, "Certos Acordes", e disse "ouve que beleza, as letras são do irmão dela, poeta e filósofo". Mas o impacto mesmo veio com o disco "A Fábrica do Poema", da Adriana Calcanhotto, quando ouvi "Inverno", que agora regravei.

BA: Parece que, com Cicero e Waly, a poesia, que já tinha cadeira cativa na MPB mais "classicona", encontrou abrigo brasileiro no pop. Como você situaria a importância de Antonio Cicero nesse panorama?

AN: Certa vez, o Miguel Conde apresentou o Cicero na Flip como talvez o único caso no mundo de um filósofo que toca no rádio diariamente. Essa vocação para ser "herdeiro das superfícies e das profundezas" me fascina e é muito marcante. Cicero é um poeta apaixonado na mesma medida em que é um pensador profundo e rigoroso. Ele se aproximou da música em Londres, no início dos anos 1970. Estava lá estudando filosofia no University College London quando conheceu Caetano. Cicero diz que foi Caetano quem mostrou a ele a cultura pop, abrindo sua cabeça à compreensão de que a qualidade estética de uma obra de arte não tem a ver com a origem erudita, popular ou pop. E Caetano já afirmou que Cicero foi quem organizou seu pensamento na volta do exílio para o Brasil. O livro "O Mundo Desde o Fim", como diz Caetano, é realmente "um dos maiores acontecimentos intelectuais do final do milênio no Brasil".

BA: Como foi a escolha do repertório de "Presente (Antonio Cicero 70)"?

AN: Foi uma escolha pessoal. Minha intenção não era traçar um recorte definitivo da obra musical do Cicero, mas celebrar nossa amizade, nossa pequena obra, nosso presente juntos, revelando as coisas que nos aproximam, como o gosto pela poesia clássica. A Joia Moderna já tinha feito um disco em homenagem à Marina, então a proposta do Zé Pedro foi, sendo eu um novo parceiro, iluminar momentos felizes do repertório do Cicero com outros artistas. Depois da Marina, Adriana é a parceira com quem Cicero tem uma relação mais profunda. É por isso que no disco tem três canções deles e outras duas que a Adriana gravou.

BA: E como fez, ou melhor, onde buscou fôlego para recriar canções que, de tão clássicas em nossa memória pop e afetiva, já pareciam ter encontrado versões definitivas?

AN: São canções importantes na minha história com a música, então o fôlego sempre existiu ao redor desse repertório, mesmo quando nem imaginava gravá-lo. Musicalmente, quem está por trás do disco é o Arthur Kunz, que fez a produção musical. Ele também produziu o "Sem Medo Nem Esperança" e outros outros trabalhos meus. É um produtor que conhece bem a minha música e que, por isso, contribuiu muito para que eu me encontrasse nessas canções.

BA: Como surgiu o álbum e como foi ter recebido esse respaldo tão grande?

R: Na verdade, foi o Zé Pedro quem "inventou" esse disco. Depois que saiu o "Sem Medo Nem Esperança", ele me ligou e disse "vamos fazer outro?" No começo, a ideia era fazer surpresa e só contar para o Cicero quando o disco tivesse pronto. Só que depois pareceu interessante envolvê-lo, até para que ele pudesse sinalizar alguma música de que gostasse muito, por exemplo. Foi o caso de "Bagatelas", parceria com Frejat. Essa música entrou por sugestão do Cicero.

BA: Você tem uma letra gravada por Gal, é interlocutor de Cida Moreira e, ao mesmo tempo, tem uma convivência produtiva com gente da tua geração, como Alice, Ava e Lira. Você, estética ou poeticamente, se sente parte de um movimento ou uma cena específica?

AN: Não. Aliás, Cicero sempre diz que os outros é que estão interessados em rotular o que a gente faz, nós mesmos só queremos fazer. É verdade. Eu só me aproximo de quem admiro, a regra é essa. Construo a minha carreira de modo fiel ao que bate em meu peito.

BA: Por que chamou a Ava Rocha para dirigir teu clipe?

AN: Sempre quis ter um clipe dirigido pela Ava. Fazer um vídeo de "O Último Romântico" era um desafio, por ser uma canção que habita a memória afetiva de muita gente. Só uma artista poderosa como ela poderia ressignificar um sucesso desse tamanho. Quando ela me disse o que estava imaginando, topei na hora, porque percebi que, pela primeira vez, essa música seria vista sob a ótica do letrista.

BA: Por que a música do Lirinha te toca tanto?

AN: Porque o Lira é singular, um artista por inteiro. Ninguém escreve, canta, se movimenta como ele. Assisti a um show no Sesc Vila Mariana que mexeu muito comigo. Virei fã e tive a honra de tê-lo como meu convidado no show de lançamento do disco "Sem Medo Nem Esperança" no Sesc Belenzinho. Para falar dele, gosto de citar o Guimarães Rosa: Lira vai "gastando o diabo de dentro da gente".

BA: Como surgiu "Onda", essa tua nova parceria com Cicero? E por que, afinal, nesses tempos de retrocessos e afirmações, uma ode ao amor gay?

AN: Na verdade, "Onda" é uma canção antiga que só gravei agora. Uma das primeiras melodias que eu fiz na vida. Musiquei esse soneto do livro "Guardar", pouco tempo depois que conheci o Cicero, em 2005. Como rola com a maioria dos poemas, não o escolhi, ele se insinuou à música no momento em que li. Amor é amor de qualquer maneira. Quem é contra o amor de uma relação gay é contra o amor de um modo geral e está, inevitavelmente, preferindo o ódio. É fundamental dedicar odes diárias ao amor.

BA: O jornalismo te perdeu definitivamente para a música?

AN: Não, e penso que jamais me perderá. Com o tempo, percebi que é muito bom ter outra profissão. O jornalismo oferece a segurança que eu preciso para a minha música. Quero compor e cantar da forma como entendo que deve ser: sem pressa, sem medo nem esperança.


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