11.8.17

novo imortal



Antonio Cicero foi eleito imortal pela Academia Brasileira de Letras. apesar de ter ficado famoso primeiro por escrever letras de canções, seu interesse principal é a poesia escrita e, em seguida, a filosofia, atividades às quais ele se dedica há mais de 40 anos - dividindo o tempo com música, aulas e conferências pelo Brasil - com beleza e rigor admiráveis. porque tenho clareza disso, apesar de nossa grande amizade, nossa parceria sempre foi, num certo sentido, bem mais poética que musical. fizemos apenas uma canção em que a letra veio depois da música. no geral, ele liga para ler algo que acabou de escrever ou um poema misteriosamente insinua-se à música no momento em que leio. tem uma coisa que a Adriana Calcanhotto disse certa vez, e que eu adoro: ela pensa duas vezes antes de ligar para o Cicero, com receio de atrapalhar o processo de um poema. sim, nosso poeta, que sempre preferiu o trabalho aos holofotes, sabe que a atividade poética, até que se revele o que vale por si, o que merece existir como um monumento da língua, demanda muito tempo, empenho - por mais que às vezes a transpiração passe invisível por olhos distraídos! - e que sejam utilizados todos os recursos, toda a bagagem de que dispõe. pois bem, é por isso que o melhor troféu, além do reconhecimento absolutamente merecido e de representar, com seus projetos, a modernidade que a ABL precisa nesse momento, é saber que Cicero não mais precisará dividir seu tempo se não quiser. agora, para sempre, a poesia e a filosofia nos recompensarão com o esforço integral que ele poderá, enfim, dedicar a elas. como bem sintetizou o jornalista Leonardo Lichote no Facebook, há pouco:

"Cicero, que é muito maior que a ABL, agora torna a ABL maior."

letrux*



Letrux é o novo não só porque tem o que dizer, mas porque o diz de maneira inédita, mesmo quando trata de sentimentos que todos conhecemos muito bem, realizando a proeza de soar absolutamente singular, desconcertante, sedutora na alegria ou na tristeza, na verdade ou na ironia, na densidade ou na leveza

desde a primeira audição fui seduzido pelo mistério desse disco e ontem, em São Paulo, a estreia do show revelou uma multidão igualmente seduzida, cantando junto, chorando, rindo, amando, flutuando no salão do não óbvio, da diferença

por mais que tenha acabado de chegar, por esse acontecimento que a gente não sabe explicar, de quando a música se impõe e é capaz de atingir tanta gente como uma flecha, esse disco já é um clássico do pop brasileiro à altura dos nossos ídolos e, ainda bem, dissonante de todos eles

Letrux não é isso ou aquilo, é um agora como jamais ouvimos, é o auge da expressão da Letícia Novaes em seu presente bonito, pessoal e intransferível

*depois do "caldo", depois do show




5.8.17

the neverending craft


primeiro dia quieto em casa depois de ter enviado o disco novo à fábrica e encerrado uma fase criativa que me consumiu pelos últimos seis meses, eis que surge uma canção nova assim em pleno sofá da sala