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6.5.12

"Bichano de Cheshire"



Ao ver Alice, o Gato só sorriu. Parecia amigável, ela pensou; ainda assim, tinha garras muito longas e um número enorme de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.

"Bichano de Cheshire", começou, muito tímida, pois não estava nada certa de que esse nome iria agradá-lo; mas ele só abriu um pouco mais o sorriso. "Bom, até agora ele está satisfeito", pensou e continuou: "Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?"

"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.

"Não me importa muito para onde", disse Alice.

"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.

"Contanto que eu chegue a algum lugar", Alice acrescentou à guisa de explicação.

"Oh, isso você certamente vai conseguir", afirmou o Gato, "desde que ande o bastante."


CARROLL, L. Aventuras de Alice no País das Maravilhas; Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.


27.12.09

Conselho de uma lagarta




A Lagarta e Alice ficaram olhando uma para a outra algum tempo em silêncio. Finalmente a Lagarta tirou o narguilé da boca e se dirigiu a ela numa voz lânguida, sonolenta.

“Quem é você?” perguntou a Lagarta.

Não era um começo de conversa muito animador. Alice respondeu, meio encabulada: “Eu... eu mal sei, Sir, neste exato momento... pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então."

“Que quer dizer com isso?”, esbravejou a Lagarta. “Explique-se!”

“Receio não poder me explicar”, respondeu Alice, “porque não sou eu mesma, entende?”

“Não entendo”, disse a Lagarta.

“Receio não poder ser mais clara”, Alice respondeu com muita polidez, “pois eu mesma não consigo entender, para começar; e ser de tantos tamanhos diferentes num dia é muito perturbador."

“Não é”, disse a Lagarta.

“Bem, talvez ainda não tenha descoberto isso”, disse Alice, “mas quando tiver de virar uma crisálida... vai acontecer um dia, sabe... e mais tarde uma borboleta, diria que vai achar isso um pouco esquisito, não vai?”

“Nem um pouquinho”, disse a Lagarta.

“Bem, talvez seus sentimentos sejam diferentes”, concordou Alice, “tudo que sei é que para mim isso pareceria muito esquisito.”

“Você!” desdenhou a Lagarta. “Quem é você?”

O que as levou de novo para o início da conversa. Alice, um pouco irritada com os comentários tão breves da Lagarta, empertigou-se e disse, muito gravemente: “Acho que primeiro você deveria me dizer quem é.”

“Por quê?” indagou a Lagarta.

Aqui estava outra pergunta desconcertante; e como não pudesse atinar com nenhuma boa razão, e a Lagarta parecesse estar numa disposição de ânimo muito desagradável, Alice deu meia-volta.


CARROLL, L. Aventuras de Alice no País das Maravilhas; Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.


25.8.08

Melhor não ter razão



Naquela direção”, explicou o Gato, acenando com a pata direita, “vive um Chapeleiro; e naquela direção", acenando com a outra pata, “vive uma Lebre de Março. Visite qual deles quiser: os dois são loucos”. “Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou. “Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca." “Como sabe que sou louca?” perguntou Alice. “Só pode ser”, respondeu o Gato, “ou não teria vindo parar aqui”.

CARROLL, L. Aventuras de Alice no País das Maravilhas; Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.