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23.6.18

o homem de neve / the snow man



O homem de neve

Há que se ter mente hibernal
Para observar a geada e os galhos
Dos pinheiros encrostados de neve;

E estar ao frio há muito tempo
Para ver os zimbros com beirais de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
Em nenhuma aflição ao som do vento,
Ao som de umas poucas folhas,

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que venta no mesmo lugar árido

Para o que ouve, que escuta na neve,
E, ele próprio nada, contempla
Nada que não esteja ali e o nada que lá está.


The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.


In: STEVENS, Wallace. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


11.1.16

Uma arte / One art



A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last,
or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


BISHOP, Elizabeth. Poemas escolhidos / Elizabeth Bishop. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Seleção, tradução e textos de Paulo Henriques Britto.


19.10.13

Canções para uma cantora de cor (excerto)



III
Nana neném.
Criança e adulto
dormem fundo.
No mar, o navio ferido naufraga,
cheio de chumbo.

Nana neném.
Países brigam,
países morrem.
A sombra do berço traça na parede
uma gaiola enorme.

Nana neném.
Dorme que a guerra acaba
e o sono continua.
Larga esse brinquedo bobo
e pega a lua.

Nana neném.
Se alguém disser
que criança não tem siso,
não liga pra eles não, que isso de siso
não é preciso.

Nana neném.
Criança e adulto
dormem fundo.
No mar, o navio ferido naufraga,
cheio de chumbo.


BISHOP, Elizabeth. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das letras, 2012. 


1.8.12

Balanços



VI

É isto que me cabe.
Dentro disto é necessário caber
até que tudo acabe.

Mas há nisso uma espécie de prazer,
uma volúpia esguia,
impalpável, difícil de dizer,

feito uma melodia
que se escutou e depois se esqueceu,
porém retorna um dia,

inconfundível: sim, este sou eu,
e eis aqui o palácio
que construí, e agora é todo meu:

um só andar, um passo
de frente e um de fundo. É um bom espaço.


BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.