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9.1.23

Tácito



Seguia o ano seu curso
quando doze cidades célebres da Ásia Menor
ficaram de todo arrasadas por um terremoto noturno,
tanto mais letal quanto mais chã a esperança.
Nem mesmo de bom proveito serviu o refúgio
dos campos,
a que em tais casos se costuma recorrer:
porque as bocarras da terra engoliam seus miseráveis habitantes.
Narra-se que as montanhas imensas se esparramaram
em vastas planícies;
que as planícies vastas se converteram
em montanhas imensas;
que altas labaredas de fogo sapecavam a periferia
e o centro dos escombros
entre o espesso betume e a lava e o súlfur que arde.
Nem o de cem olhos, Argos nenhum,
Discerniria crepúsculo, noite, aurora, manhã, tarde.



SALOMÃO, Waly. Pescados vivos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.


10.6.19

Emílio ou Da educação



Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto.


SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

17.8.18

HOmmage (trecho)



5

Nova sensibilidade explodindo a velha sintaxe conformada/conformista.

"SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI" e o strip-tease do humanismo do assim chamado "homem de bem" que proclama satisfeito "bandido bom é bandido morto". Presuntos a granel, aumento dos locais de desova, Esquadrão da Morte enquanto justiceiro de Deus e da Pátria e da Família. Pena de Morte e decepamento da cabeça e corte do caralho para animar a primeira página deste tecido de horrores que é o jornal "O POVO".

O "homem de bem" é um amoral nato.


SALOMÃO, Waly. Armarinho de miudezas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

25.2.13

Por um novo catálogo de tipos



Por aqui tem feito D dias lindos
Procurar um outro AR
                    ALTERAR
E o meu ser se esgota na procura patológica
Do que nem sei o que é
E esse é
Não há nunca
Em parte alguma
Prazer algum
Mantra mito nenhum
Que me
                             Baste.

ALTERAR


SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

20.10.12

Tarifa de embarque


"Sou sírio. O que é que te assombra, estrangeiro, 
 Se o mundo é a pátria em que todos vivemos, 
 Paridos pelo caos?" 
 - Meleagro de Gádara, 100 anos a.C.


Não te decepciones
ao pisares os pés no pó
que cobre a estrada real de Damasco.
Não descerres cortinas fantasmagóricas:
camadas de folheados
                        - água de flor de roseira
                        - água de flor de laranjeira -
que guloso engolias,
gravuras de aldeãs portando ânforas ou cântaros,
cartões do templo de Baal
e das ruínas do reino de Zanubia em Palmira,
fotos do Allepo, Latakia, Tartus, Arward
que em criança folheavas nas páginas da revista Oriente
na idade de ouro solitária e febril
por entre as pilhas de fardos de tecidos
da loja Samira;
arabescos, poços, atalaias, minaretes, muezins,
curvas caligrafias torravam teus cílios, tuas retinas
no vão afã de erigires uma fonte e origem e lugar ao sol
na moldura acanhada do mundo.
Síria nenhuma iguala a Síria
que guardas intacta na tua mente régia.
Nunca viste o narguilé de ouro que tua avó paterna
                       - Kadije Sabra Suleiman -
exibia e fumava e borbulhava nos dias festivos
da ilha de Arward.
Retire da tela teu imaginário inchado
de filho de imigrante
e sereno perambule e perambule desassossegado
e perambule agarrado e desgarrado perambule
e perambule e perambule e perambule.
Perambule
- eis o único dote que as fatalidades te oferecem.
Perambule
- as divindades te dotam deste único talento.


SALOMÃO, Waly. Tarifa de Embarque. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.


3.9.12

Mal secreto



Não choro
meu segredo é que sou rapaz esforçado
fico parado calado quieto
não corro não choro não converso
massacro meu medo
mascaro minha dor
já sei sofrer
não preciso de gente que me oriente

Se você me pergunta
como vai
respondo sempre igual
tudo legal

Mas quando você vai embora
movo meu rosto do espelho
minha alma chora
vejo o Rio de Janeiro
vejo o Rio de Janeiro
comovo, não salvo, não mudo
meu sujo olho vermelho
não fico parado
não fico calado
não fico quieto
corro choro converso
e tudo o mais jogo num verso
intitulado MAL SECRETO
e tudo o mais jogo num verso
intitulado MAL SECRETO


SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. São Paulo: Brasiliense, 1983.


9.5.12

Uma vez atravessei uma cidade populosa / Once I passed through a populous city



Uma vez atravessei uma cidade populosa imprimindo
                                          no meu cérebro, para uso futuro,
seus espetáculos, sua arquitetura, trajes e tradições.
Mas agora de tudo daquela cidade me recordo só de
                                                                        um homem
que por ali vagabundeou comigo e que me amou.
Dia após dia, noite após noite, permanecemos juntos.
Tudo o mais já foi esquecido por mim - me recordo
                                                              só de um homem
rude e ignorante que, quando parti, segurou minha
                                                              mão muito tempo,
boca não disse palavra, triste e trêmulo.


Once I passed through a populous city

Once I passed through a populous city, imprinting on my brain, for future use, its shows, architecture, customs and traditions

But now of all that city I remember only the man who wandered with me there, for love of me.

Day by day, and night by night, we were together.

All else has long been forgotten by me — I remember, I say, only one rude and' ignorant man who, when I departed, long and long held me by the hand, with silent lips, sad and tremulous.



WHITMAN, Walt. Uma vez atravessei uma cidade populosa. Tradução de Waly Salomão. In: SALOMÃO, Waly. Pescados vivos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.


7.3.11

A praia da Tropicália (excerto)




Quando Gal -Fa-tal- estava em cartaz, Torqua [Torquato Neto] agradeceu publicamente [vide coluna Geléia Geral] ao poeta Sailormoon [Waly Salomão], autor das gigantescas palavras-destaques do show, por tê-lo feito recuperar a fé nas palavras. Ora, pois pois, um poeta que perde a fé nas palavras, sílabas, letras, sentenças está quase quase a tosar com máquina zero sua possibilidade de poesia. Poesia: genuína operação anti-afasia. Por inabilidade para suportar banalidades evidentes, o poeta forja uma linguagem e tenta revigorando as palavras, sílabas, letras, sentenças se salvar. Resta a aporia: ou ilusão idealista ou abismo mudo. Mas a poesia não salva nada nem ninguém, ela somente supre o buraco da perda das certezas. Ácidos e mais ácidos roeram as certezas. Enquanto isto, o poeta não se cura de si. O nascido sob o signo de escorpião. Encurralado por um círculo de fogo que se aperta cada vez mais, o escorpião para não morrer torrado crava o ferrão em si mesmo.

SALOMÃO, Waly. Armarinho de Miudezas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

8.2.11

Mega-ampulheta



desde os tempos imemoriais
fixei residência nesta sala de mixagem
cercado de Lexicon,
                Syntaxis,
                Spatial Expander,
                Omnix,
                Scenaria,
                Axiom,
                Flying Faders,
                                    compressores,
                                    condensadores.
e aqui restarei estarrecido
por toda a eternulidade.
"pode a sorte separar-nos
ou a morte de um ou de outro;
mas o amor subsiste, longe ou perto,
na morte ou na vida."
sobreviver ao recorte de Machado de Assis.
epitalâmio. epífita. epitáfio.
como se o tempo sucumbisse
fora do escopo da máquina
e pairasse, apenas, em algumas ilhas esparsas
da anacrônica memória pessoal.


SALOMÃO, Waly. Lábia. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

22.9.09

Rua Real Grandeza



ah vale a pena ser poeta
escutar você torcer de volta a chave
na fechadura da porta
abra volte veja
sou um cara sem saída
mas não se iluda com esta minha vida
toda vez que avisto sua figura leviana
no pórtico do quarto
penso em dar um corte em quem me embroma
sou forte abra volte
veja se me entende e me ama
desde o berço conservo o mesmo endereço
moro na rua real grandeza
abra, abra a porta
volte e veja
você não me engana
sozinho sem amor sem carinho
não digo com certeza
mas posso me arruinar
veja
jatos de sangue
espetáculos de beleza
ah vale a pena ser poeta
escutar você torcer de volta
a chave na fechadura da porta


SALOMÃO, Waly. Gigolô de Bibelôs. São Paulo: Brasiliense, 1983. Musicado por Jards Macalé.