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16.7.18
autobiografia de todo mundo
É uma coisa estranha os endereços onde você mora. Quando mora num lugar você o conhece tão bem que é como a identidade uma coisa é tanto uma coisa que essa coisa não poderia nunca ser nenhuma outra coisa e então você mora em algum outro lugar e anos mais tarde o endereço que era aquele endereço era um nome como seu próprio nome e você o dizia como se não fosse um endereço mas como alguma coisa que fosse viva e então anos mais tarde você não sabe qual era o endereço e quando você diz isso não é mais um nome mas alguma coisa de que você não consegue se lembrar. Isto é o que faz a sua identidade não uma coisa que existe mas uma coisa de que você ou se lembra ou não se lembra.
STEIN, Gertrude. Autobiografia de todo mundo. São Paulo: Cosac Naify, 2010. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.
8.12.13
autobiografia de todo mundo
Durante todo esse tempo não escrevi nada. Não havia escrito nem estava escrevendo nada. Não havia nada dentro de mim que precisasse ser escrito. Nada precisava de qualquer palavra e não havia palavra alguma dentro de mim que não pudesse ser dita e consequentemente não havia palavra alguma dentro de mim. E eu não estava escrevendo. Comecei a me preocupar com identidade. Eu sempre fora eu porque tinha palavras dentro de mim que tinham de ser escritas e agora qualquer palavra que eu tivesse dentro de mim poderia ser dita não precisava ser escrita. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece. Mas será que eu era eu quando eu não tinha nenhuma palavra escrita dentro de mim. Isto era muito chato. Algumas vezes pensei em tentar mas tentar é morrer e assim na verdade não tentei. Não estava escrevendo nada.
STEIN, Gertrude. Autobiografia de todo mundo. São Paulo: Cosac Naify, 2010. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.
27.8.12
a autobiografia de Alice B. Toklas (excerto)
Bruce, Patrick Henry Bruce, foi um dos primeiros e mais ardentes alunos de Matisse e logo estava fazendo pequenos Matisses, mas não estava feliz. Ao explicar sua infelicidade, disse a Gertrude Stein, falam das tristezas dos grandes artistas, da trágica infelicidade dos grandes artistas mas afinal de contas eles são grandes artistas. Um pequeno artista tem toda a infelicidade trágica e as tristezas de um grande artista e não é um grande artista.
STEIN, Gertrude. A Autobiografia de Alice B. Toklas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de José Rubens Siqueira.
STEIN, Gertrude. A Autobiografia de Alice B. Toklas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de José Rubens Siqueira.
7.8.12
Retrato de Gertrude Stein
Picasso nunca tinha feito ninguém
posar para ele desde os dezesseis anos de idade, estava com vinte e
quatro e Gertrude Stein nunca tinha pensado em ter seu retrato pintado, e
nenhum deles dois sabe como a coisa aconteceu. De qualquer forma
aconteceu e ela posou para ele para esse retrato noventa vezes e muita
coisa aconteceu nesse meio-tempo.
***
Picasso e Fernande [Olivier] foram jantar, Picasso nessa época era o que minha querida amiga e colega de escola, Nellie Jacot, chamava de um engraxate bonito. Ele era magro moreno, vivo com grandes olhos de poças e violento mas não de um modo áspero. Estava sentado ao lado de Gertrude Stein e ela pegou um pedaço de pão. Isto, disse Picasso arrancando o pão com violência, este pedaço de pão é meu. Ela riu e ele fez um ar de submisso. Foi o começo da intimidade deles.
***
Então
aconteceu a primeira pose. O ateliê de Picasso eu já descrevi. Nessa
época havia ainda mais desordem, mais entra e sai, mais fogo vivo na
estufa, mais comida e mais interrupções. Havia a grande poltrona de braços
quebrada em que Gertrude Stein posou. Havia um sofá onde todo mundo
sentava e dormia. Havia uma cadeirinha de cozinha em que Picasso sentava
para pintar, havia um grande cavalete e havia muitas telas grandes. Era
o auge do final da fase arlequim quando as telas eram enormes, as
figuras também, e os grupos.
***
Fernande estava como sempre, muito grande, muito bonita e muito
graciosa. Ela se ofereceu para ler em voz alta as histórias de La
Fontaine para divertir Gertrude Stein enquanto Gertrude Stein posava.
Ela assumiu a pose, Picasso sentou muito ereto em sua cadeira e muito
perto da tela, com uma palheta muito pequena que era de uma cor marrom
acizentada uniforme, misturou mais um pouco de marrom acizentado e a
pintura começou. Foi a primeira de umas oitenta ou noventa poses.
STEIN, Gertrude. A Autobiografia de Alice B. Toklas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de José Rubens Siqueira.
*Tela de Pablo Picasso, 1906.
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Página LXXVII
Quando ela vem será que deixa a cozinha suja.
Quando ela vem será que lava a prata.
Quando ela vem será que todos dizem como vai você.
Isto parece muito pouco depois de tudo.
trecho de Gertrude Stein, de The King Or Something (The Public Is Invited To Dance), em tradução de Júlio Castañon Guimarães, retirado daqui.
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