16.1.12

Vivendo sob o fogo (1)



P. 304


O que não foi nomeado – não existe no mundo. O erro de Serioja foi o de querer certezas e, querendo isso, cerrar as minhas pálpebras, minha vida – o que ela é (uma realidade repugnante, além de uma desordem familiar). Eu, que nunca havia traído a mim mesma, tornei-me traidora para ele.


**


O direito ao segredo. É preciso respeitá-lo. Sobretudo quando se sabe que o segredo é uma necessidade nata, que nasceu com o outro, que é a respiração do outro. Os nomes nada têm a ver, aqui. Seja sábio, não dê nomes (não pergunte).


TSVETÁIEVA, M. Vivendo sob o fogo: confissões. São Paulo: Martins, 2008.


7.1.12

Os amantes sem dinheiro



Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


ANDRADE, Eugénio de. Primeiros poemas / As mãos e os frutos / Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.


29.12.11

O sorriso



Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.


11.12.11

Necessito de um ser, um ser humano



Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.


FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pesquisa e organização de Maria Eugenia Boaventura.

10.12.11

O som desta paixão esgota a seiva



O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.


FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pesquisa e organização de Maria Eugenia Boaventura.

4.12.11

Mais doce



Confesso: não pude desamar de ti.
Tornei-me, então, tua mãe.

Afinal, não serias o meu homem,
eu sabia. Não vacilei, e dedico-me

à condição mais intestina,
mais doce – a de quem cozinha,

cose, espera, cala, tece,
aconselha, espera, vela

(mesmo que não, é como se fosse),
à condição de quem vê passar

o tempo no cabelo, nos gestos,
nas histórias, nos amigos, nos dentes

do seu pequeno príncipe, do seu dolorido,
do seu príncipe feliz.

Porque não me querias como homem,
porque não poderia ser teu pai,

restou-me não ser menos que este amor
que segue ao teu lado

mesmo quando é tão distante teu caminho,
teu silêncio, teu passo rápido, teu sonho.

Choro,
que o destino das mães é sempre triste.

Porque é triste não poder ser
a mulher do seu menino.


FERRAZ, Eucanaã. Rua do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


26.10.11

Um pouco antes



Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
                    pensa
                          ao veres no horizonte
                          sobre o mar de Copacabana
                                                          uma nesga azul de céu
                    pensa que resta alguma coisa de mim
                    por aqui
                                Não te custará nada imaginar
                                que estou sorrindo ainda naquela nesga
                                azul celeste
                                pouco antes de dissipar-me para sempre.




GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.


16.10.11

Amar é jogo difícil



amar é jogo difícil.
amar é dever de ofício.
amar é fogo de artifício?
amar é saber-se físsil.

amante: coração fendido.
amante: coração queimado.
amante: trabalhador forçado.
amante: jogador ferido.


FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pesquisa e organização de Maria Eugenia Boaventura.

11.8.11

Cartas a um jovem poeta (excerto)



"ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com outra pessoa. Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado? O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa"

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2009.

11.6.11

Não possa tanta distância





não possa tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre uma onda
e outra onda
no oceano dos lençóis




LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. São Paulo: Global, 2002.