6.7.13
Margem de uma onda
você entra no mar
mas é deserto
areia empedran-
do até os ossos
(ondas do mar de Vigo
como hei de estar contigo?)
mar que se diz deserto
mas onde água é ter nome
a uma onda extrema
quer te levar o poema
lá onde é tão difícil
estar - onde é sem nome
MACHADO, Duda. Margem de uma onda. São Paulo: Ed. 34, 1997.
10.6.13
Se ouve ainda o mar
Há muitas noites se ouve ainda o mar,
em ligeiro vaivém, pelas areias finas.
Eco de uma voz fechada no pensamento
que provém de tempos; e também este
lamento assíduo das gaivotas: talvez
de pássaros das torres, que o abril
instiga em direção à planície. Já
me estavas vizinha com aquela voz;
e eu gostaria que também a ti chegasse,
agora, meu, um eco de memória,
semelhante a esse murmúrio de mar.
QUASIMODO, Salvatore. Poesias escolhidas. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1968. Tradução de Sílvio Castro.
4.6.13
Nuvens I
uma nuvem. São nuvens as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também o que já está perdido.
BORGES, Jorge Luis. Obras completas. Buenos Aires: Emecé Editores, 1989. Tradução de Antonio Cicero.
29.5.13
Contente de me dar como as gaivotas
Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.
Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
ANDRADE, Eugénio de. Primeiros poemas - As mãos e os frutos - Os amantes sem dinheiro. Porto: Assírio & Alvim, 2012.
15.5.13
Outrora e hoje
Meu dia outrora principiava alegre;
No entanto, à noite eu chorava. Hoje, mais velho,
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente.
HÖLDERLIN, Friedrich. In: BANDEIRA, Manuel. Poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1948.
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20.4.13
O mundo que venci deu-me um amor
O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...
FAUSTINO, Mário. Poesia de Mário Faustino. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1966.
17.3.13
Du côté de chez Swann (excerto)
Mas nem mesmo com referência às mais insignificantes coisas da vida somos nós um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de que cada qual não tem mais do que tomar conhecimento, como se se tratasse de um livro de contas ou de um testamento; nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos "ver uma pessoa conhecida" é em parte um ato intelectual. Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo com todas as noções que temos a seu respeito; e, para o aspecto total que dele nos representamos, certamente contribuem essas noções com a maior parte. Acabam elas por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal modo nuançar a sonoridade da voz, como se esta não fosse mais que um transparente invólucro, que, a cada vez que vemos aquele rosto e ouvimos aquela voz, são essas noções o que olhamos e escutamos.
PROUST, Marcel. No caminho de Swann. São Paulo: Globo, 2006, p. 39-40. Tradução de Mario Quintana.
11.3.13
Canção de amor ao visível
Janelas abertas sobre o mundo,
tanto mar disponível,
todo mar é visível.
Esta é uma canção de amor ao visível:
o que não é visível, não é.
VARELLA, Alex. Céu em cima / Mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.
9.3.13
Inocentes do Leblon
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
Trouxe imigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.
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