17.2.14

Ao mínimo clarão



Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.

Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.

Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. Chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.


28.1.14

Sócrates e Alcibíades



“Por que honras, sagrado Sócrates,
Sempre esse jovem? Não conheces nada maior?
Por que o fitam com amor,
como aos deuses, os teus olhos?”

Aquele que pensou o mais fundo ama o mais vivaz,
Aquele que encarou o mundo entende a juventude altiva
E enfim frequentemente os sábios
curvam-se aos belos.


HÖLDERLIN, F. Sämtliche Werke und Briefe. Vol 1. München: Karl Hanser, 1970. Tradução de Antonio Cicero.


10.1.14

O rapaz de Pasolini



Tem o braço levantado para o sol
que rompe muito distante ainda
do seu sonho; é um rapaz
desses do Pasolini esplendidamente
nu, plantado na terra;
o braço direito,
como já disse, levantado; o outro
cai-lhe sem abandono ao longo
do corpo; o sorriso
começa nos olhos de sua mãe
e nele a mágoa
de ser traído não se anuncia
ainda; o futuro
talvez venha a ter gente assim
feita da substância
da luz; o vagaroso futuro;
o presente não, não tem.


ANDRADE, Eugénio de. O sal da língua. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1995.


8.1.14

Eu olho



Olho o céu branco
as nuvens cinzentas
olho o sol sangrando.

Então é isto o mundo,
a casa dos mundos!

Uma gota de chuva...

Olho as casas altas
olho as mil janelas
e a torre distante.

Isto é pois a terra,
morada dos homens!

Nuvens acumulam-se, o sol desaparece.

Olho homens bem vestidos.
Mulheres sorrindo.
Cavalos curvados.

As nuvens, como estão pesadas.

Olho e olho sempre.
Tudo é tão estranho.
Errei, pois, de terra?


OBSTFELDER, Sigbjørn. Je regarde. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia traduzida. São Paulo: Cosac Naify, 2011. Organização e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães.


7.1.14

Hamlet, Ato I, Cena I



Como Horatio, 
queremos que a ilusão permaneça 
ainda que termine por nos esmagar.


MACHADO, Duda. Margem de uma onda. São Paulo: Ed. 34, 1997.


27.12.13

Ligue os pontos



enquanto você dormia liguei
os pontos sardentos das suas
costas na esperança de que
a caneta esferográfica revelasse
a imagem de algum ser mitológico
de nome proparoxítono o mapa
detalhado de algum tesouro
submerso formasse quem sabe
alguma constelação ruiva oculta
na epiderme e me deparei
com o contorno de um polígono
arbitrário que não me fornecia
metáforas não apontava direções
simplesmente dizia: você está aqui


DUVIVIER, Gregorio. Ligue os pontos: poemas de amor e big bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


25.12.13

Gacela de la huida / Gazel da fuga



Me he perdido muchas veces por el mar
con el oído lleno de flores recién cortadas,
con la lengua llena de amor y de agonía.
Muchas veces me he perdido por el mar,
como me pierdo en el corazón de algunos niños.

No hay nadie que al dar un beso
no sienta la sonrisa de la gente sin rostro,
ni nadie que al tocar un recién nacido
olvide las inmóviles calaveras de caballo.

Porque las rosas buscan en la frente
un duro paisaje de hueso
y las manos del hombre no tienen más sentido
que imitar a las raíces bajo tierra.

Como me pierdo en el corazón de algunos niños,
me he perdido muchas veces por el mar.
Ignorante del agua, voy buscando
una muerte de luz que me consuma.


Perdi-me muitas vezes pelo mar,
com o ouvido cheio de flores recém-cortadas,
com a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos.

Não há noite em que, ao dar um beijo,
não sinta o sorriso das pessoas sem rosto,
nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido,
olvide as imóveis caveiras de cavalo.

Porque as rosas buscam em frente
uma dura paisagem de osso
e as mãos do homem não têm mais sentido
que imitar as raízes sob a terra.

Como me perco no coração de alguns meninos,
perdi-me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando
uma morte de luz que me consuma.


LORCA, Federico García. Obra poética completa. São Paulo: Martins Fontes, 1989. Tradução de William Agel de Melo.


8.12.13

autobiografia de todo mundo



Durante todo esse tempo não escrevi nada. Não havia escrito nem estava escrevendo nada. Não havia nada dentro de mim que precisasse ser escrito. Nada precisava de qualquer palavra e não havia palavra alguma dentro de mim que não pudesse ser dita e consequentemente não havia palavra alguma dentro de mim. E eu não estava escrevendo. Comecei a me preocupar com identidade. Eu sempre fora eu porque tinha palavras dentro de mim que tinham de ser escritas e agora qualquer palavra que eu tivesse dentro de mim poderia ser dita não precisava ser escrita. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece. Mas será que eu era eu quando eu não tinha nenhuma palavra escrita dentro de mim. Isto era muito chato. Algumas vezes pensei em tentar mas tentar é morrer e assim na verdade não tentei. Não estava escrevendo nada.


STEIN, Gertrude. Autobiografia de todo mundo. São Paulo: Cosac Naify, 2010. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.


4.12.13

Leblon



O menino olha para o mar:
lá no fundo ele se funde ao céu
mas atrás há um muro e aquém do olhar
pulsam sangue e morro e mata e breu.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


27.10.13

Ricardo



Vive tu, meu menino, os belos anos
Junto dos teus, na doce companhia
Do que há de melhor em corações humanos,
E faze deste dia eterno dia.


ASSIS, Machado de. Ricardo. In: CALCANHOTTO, Adriana (Org.). Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.