8.1.16

Orelhas (4)



Eu te digo que é preciso não morrer no poema;
que é preciso amar e não parar o pulso de amar
no poema; que é preciso não perder no poema
o amigo; que é preciso não temer dormir só
e nu sob os relâmpagos que estendem
seus galhos sobre o papel em que; é preciso
não mentir, e saber dizer nunca mais, porque
às vezes é preciso; deixar que o inimigo
descanse em paz aqui enquanto queimamos
a noite à procura de pão justiça e edifícios
impossíveis lábios que parecem guardar
a água exata do nosso nome ali onde;
eu te digo que é preciso aceitar o verso ruim
dar a outra face ao silêncio do poema no poema
e ver partir sem pena os verbos que sagrados
só se digam sob o teto de jamais os pronunciarmos;
é preciso deixar que no poema venha quebrar
a maré rasa das palavras ultrajadas repetidas
repisadas nos jornais nos livros nos mercados
apanhadas com o coração na boca e o engano
dos sentidos e do espírito entre os dentes; palavras
tantas vezes obras que pobres não valem a tinta
de novamente serem ditas; dizê-las, no poema;
eu te digo que é preciso perdoá-las.


FERRAZ, Eucanaã. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


22.12.15

The garden of Proserpine (excerto)



From too much love of living,
From hope and fear set free,
We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever;
That dead men rise up never;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

Por demais amar esta vida,
sem nada a esperar ou temer,
eis aqui a graça devida
a seja lá que deus houver
por vida alguma ser eterna;
por morto algum sair da terra;
e até porque o rio que erra
um dia alcança um mar qualquer.


Algernon Charles Swinburne

Tradução minha.

9.12.15

The last interview and other conversations (excerto)



Günter Gaus - Gostaria de perguntar se você sente falta do período da Europa pré-Hitler, que nunca mais existirá. Quando você vem para a Europa, o que permanece e o que foi irremediavelmente perdido?

Hannah Arendt - A Europa do período pré-Hitler? Eu não sinto falta dela, devo dizer. O que permanece? A língua permanece.

Gaus - E ela é muito importante para você?

Arendt - É muito importante. Eu sempre me recusei, conscientemente, a perder a minha língua materna. Eu sempre mantive uma certa distância do francês, que falava muito bem, assim como do inglês, em que escrevo hoje em dia.

Gaus - Eu queria perguntar isso. Agora você escreve em inglês?

Arendt - Eu escrevo em inglês, mas nunca perdi o senso de distância. Existe uma diferença tremenda entre sua língua materna e outra língua qualquer. Eu sempre encarei isso de uma forma extremamente simples: sei uma parte considerável da poesia alemã de cor; os poemas, de alguma forma, estão sempre presentes na minha mente. Eu nunca poderei fazer isso outra vez. Eu faço coisas em alemão que eu não permitiria a mim mesma fazer em inglês. Quer dizer, às vezes eu faço em inglês também, porque me tornei audaciosa, mas em geral mantive uma certa distância. A língua alemã é o essencial que permaneceu e que eu, conscientemente, preservei.

Gaus - Mesmo nos períodos de amargura?

Arendt - Sempre. Eu pensava comigo mesma: o que se pode fazer? Não foi a língua alemã que enlouqueceu. E, segundo, não existe substituição para a língua materna. As pessoas podem esquecer suas línguas maternas. Isso é verdade  eu já vi ocorrer. Existem pessoas que falam a nova língua melhor do que eu falo. Eu ainda falo com um sotaque muito pesado, e muitas vezes falo de forma não idiomática. Eles podem fazer todas essas coisas corretamente. Mas fazem-no numa linguagem onde os clichês se sucedem, porque a produtividade que podemos lograr em nossa própria língua é cerceada quando a esquecemos.

Gaus - Os casos em que a língua materna foi esquecida: você tem a impressão de que foram resultado da repressão?

Arendt - Sim, muito frequentemente. Eu tenho visto ocorrer com as pessoas como resultado de choques. Você sabe, o que foi decisivo não foi o ano de 1933, pelo menos não para mim. O que foi decisivo foi o dia em que ficamos sabendo de Auschwitz.


In: ARENDT, Hannah. The last interview and other conversations. Brooklyn, NY: Melville House Publishing, 2013.

Tradução do inglês feita por mim e Sandra Alvarez.



2.10.15

Manuel



Fui ter com ele à Feira Popular, donde minutos
depois partimos para Sintra. Lembro-me
de o carro avançar à velocidade do meu sangue.
No Guincho, onde momentos antes
de o sol se pôr parámos, vi o mar
ganhar no espírito dele outra ondulação.
De nós, assim o soube, erguem paisagens
as viagens. Entre a pele e o coração alçam-se as pontes.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.



23.9.15

Terror de te amar



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Terror de te amar. In: PEDROSA, Inês. (org.). Poemas de amor. Lisboa: Dom Quixote, 2005.



18.3.15

O mundo estava no rosto da amada



O mundo estava no rosto da amada,
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.


RILKE, Rainer Maria. Welt war in dem Antlitz. In: CAMPOS, Augusto de. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.


12.1.15

Arte de navegar



Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.


25.12.14

Fim do céu



Sonha em jogar os olhos nas
profundezas da cidade próxima
sonha em dançar no abismo
em ignorar os dias que devoram
as coisas, os dias que engendram as coisas
sonha em levantar, em fluir como o mar
em apressar os segredos
começando um céu

no fim do céu.


ADONIS. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Tradução de Michel Sleiman.


16.12.14

Fragmento 168b



Mergulharam a lua
e as Plêiades: meia-
noite, a hora passa
e eu durmo sozinha.


SAFO. Fragmento 168b. Tradução de Antonio Cicero.


13.12.14

La notte / A noite






Michelangelo Antonioni, 1961