19.5.19
"se em meu ofício, ou arte severa" / "in my craft or sullen art"
Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando ―
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.
Não pelo homem altivo, alheio
A tormentosa lua escrevo
Sobre estas páginas de espuma
Nem pelos monstros imponentes
Com seus rouxinóis, seus salmos,
Mas pelos que se amando estreitam
Nos braços toda a dor das eras,
Que não louvam, não pagam, nem escutam
O meu ofício ― ou arte severa.
x
In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.
Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.
Poema de Dylan Thomas em versão de Mário Faustino. In: FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. São Paulo: Max Limonad, 1985.
27.3.19
18.12.18
felicidade
Felicidade é esse acaso
Que te faz o que és.
Nada queres dizer.
Nada deves a trabalho
Ou a dever.
Perverso
Brincas.
Criatura de um só dia
Absoluto
És festa
Serás luto.
És festa sonho carne frêmito.
Não mereces este prazer
Nem eu mereço teu amor:
Tudo entre nós é gratuito
E muito
E parte.
Cardumes de sol ao mar
Quase sem arte
Quero-te feliz.
CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.
14.12.18
Dar nome pra um gato / The Naming of Cats
Dar nome pra um gato ㅤ
Dar nome pra um gato não é brincadeira,
Não é dessas coisas normais de vocês;
Pode até parecer exagero, ou doideira,
Mas é pouco um só nome, ELES TÊM QUE TER TRÊS.
O primeiro é aquele de usar todo dia,
Bernardo, Ana Clara, Gabi ou Inês,
Madalena, Olga ou Sara, Eduardo e até Bia.
São nomes sisudos, são só sensatez.
Se você preferir, pode até ser mais chique,
Pra menino ou menina, os dois têm sua vez:
Dante, Ágata, ou Íris, Urraca ou Manrique —
Mas nomes sisudos, e só sensatez.
Só que os gatos precisam de um nome sem par
Um nome mais raro, mais conceituado,
Ou não sobe seu rabo, perpendicular,
Fica mole o bigode, e o orgulho, acabado!
De nomes assim eu te mostro uma renca,
Mungustão, Quaximol, Filiréu ou Jorlato,
Seja Bombalurina, ou talvez Chelimenca —
São nomes que sempre serão de um só gato.
Mas acima de tudo outro nome sobrou,
Um nome afundado em mistérios à beça,
O nome que o homem jamais desvendou —
MAS É O GATO QUE SABE, e ele nunca confessa.
Quando um gato se perde na meditação,
O motivo, eu te digo, não muda e não some:
Sua mente está presa na contemplação
Da ideia, da ideia, da ideia do nome:
Do inefável efável
Seu efinevável
Profundo, insondável e excêntrico Nome. ㅤ
The Naming of Cats
The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey-
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter --
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum -
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover --
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.
ELIOT, T. S. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Organização, tradução e posfácio de Caetano W. Galindo.
17.8.18
HOmmage (trecho)
5
Nova sensibilidade explodindo a velha sintaxe conformada/conformista.
"SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI" e o strip-tease do humanismo do assim chamado "homem de bem" que proclama satisfeito "bandido bom é bandido morto". Presuntos a granel, aumento dos locais de desova, Esquadrão da Morte enquanto justiceiro de Deus e da Pátria e da Família. Pena de Morte e decepamento da cabeça e corte do caralho para animar a primeira página deste tecido de horrores que é o jornal "O POVO".
O "homem de bem" é um amoral nato.
SALOMÃO, Waly. Armarinho de miudezas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.
16.7.18
autobiografia de todo mundo
É uma coisa estranha os endereços onde você mora. Quando mora num lugar você o conhece tão bem que é como a identidade uma coisa é tanto uma coisa que essa coisa não poderia nunca ser nenhuma outra coisa e então você mora em algum outro lugar e anos mais tarde o endereço que era aquele endereço era um nome como seu próprio nome e você o dizia como se não fosse um endereço mas como alguma coisa que fosse viva e então anos mais tarde você não sabe qual era o endereço e quando você diz isso não é mais um nome mas alguma coisa de que você não consegue se lembrar. Isto é o que faz a sua identidade não uma coisa que existe mas uma coisa de que você ou se lembra ou não se lembra.
STEIN, Gertrude. Autobiografia de todo mundo. São Paulo: Cosac Naify, 2010. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.
23.6.18
o homem de neve / the snow man
O homem de neve
Há que se ter mente hibernal
Para observar a geada e os galhos
Dos pinheiros encrostados de neve;
E estar ao frio há muito tempo
Para ver os zimbros com beirais de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em nenhuma aflição ao som do vento,
Ao som de umas poucas folhas,
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que venta no mesmo lugar árido
Para o que ouve, que escuta na neve,
E, ele próprio nada, contempla
Nada que não esteja ali e o nada que lá está.
The Snow Man
One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;
And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter
Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,
Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.
In: STEVENS, Wallace. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
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2.5.18
mão única
— é proibido
voltar atrás
e chorar.
In FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.
27.4.18
A montanha mágica - p. 627
Era capaz de ficar sentado com o relógio na mão — relógio de algibeira, chato, liso, de ouro fino, e a tampa, com o monograma gravado, aberta. Contemplava então o mostrador redondo, de porcelana, rodeado por uma dupla fileira de cifras árabes, pretas e vermelhas, e em cima do qual os dois ponteiros de ouro, enfeitados de suntuosos arabescos, apontavam em diferentes direções, enquanto o delgado ponteiro dos segundos, tiquetaqueando, dava pressurosas voltas à sua areazinha especial. Hans Castorp fixava-o, como para deter e esticar alguns minutos, na intenção de agarrar o tempo pela cauda. O minúsculo ponteiro saltitava pelo seu caminho, sem se importar com as cifras que alcançava, percorria, ultrapassava, deixava para trás, lá longe, voltava a demandar e alcançava de novo. Era insensível a objetivos, divisões e marcos. Deveria demorar-se por um instante no 60 ou pelo menos dar um pequeno sinal de que alguma coisa terminava ali. Mas, pelo jeito como passava por cima desse ponto assim como por qualquer outra risca não marcada, reconhecia-se que toda essa marcação e subdivisão do seu caminho eram apenas acessórias, e que o ponteiro se limitava a caminhar, a caminhar para frente... Diante dessa percepção, Hans Castorp tornava a abrigar o cronômetro no bolsinho do colete e abandonava o tempo à sua própria sorte.
MANN, Thomas. A montanha mágica. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. Tradução Herbert Caro.
26.4.18
Kant (relido)
Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.
In FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.
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