23.2.11

Desenterro os ossos pensando reconstruir-me



Desenterro os ossos pensando reconstruir-me
na manhã próxima que pousará absurda nesta praia
à margem do mundo.
.....................................Tudo
se dá sob os reinos da invenção: morro
hoje, nunca concluído (uma escultura na areia),
sem ruído;
.....................................amanhã,
como a milhares de anos, estarei vivo
(os cabelos num novo incêndio, o corpo
inconsútil no espaço)
e, recomeçado,
.........................serei inacabado e breve.



CARVALHO, Age de. Seleta. Belém: Paka-tatu, 2003.

20.2.11

Pós-tudo





Augusto de Campos, 1984.


8.2.11

Mega-ampulheta



desde os tempos imemoriais
fixei residência nesta sala de mixagem
cercado de Lexicon,
                Syntaxis,
                Spatial Expander,
                Omnix,
                Scenaria,
                Axiom,
                Flying Faders,
                                    compressores,
                                    condensadores.
e aqui restarei estarrecido
por toda a eternulidade.
"pode a sorte separar-nos
ou a morte de um ou de outro;
mas o amor subsiste, longe ou perto,
na morte ou na vida."
sobreviver ao recorte de Machado de Assis.
epitalâmio. epífita. epitáfio.
como se o tempo sucumbisse
fora do escopo da máquina
e pairasse, apenas, em algumas ilhas esparsas
da anacrônica memória pessoal.


SALOMÃO, Waly. Lábia. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

7.12.10

Destruição



Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.


18.11.10

Anoitecer em outubro



A noite cai, chove manso lá fora
       meu gato dorme
               enrodilhado
                        na cadeira

Num dia qualquer
             não existirá mais
             nenhum de nós dois
para ouvir
             nesta sala
a chuva que eventualmente caia
             sobre as calçadas da rua Duvivier



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

2.11.10

Hawthorne e seus musgos (excerto)



Não podemos chegar a conhecer a grandeza inspecionando-a; não há nenhum olhar que a apreenda a não ser por intuição; não precisamos fazê-la tilintar, mas somente tocá-la e descobriremos que é ouro.


MELVILLE, Herman. Hawthorne e seus musgos. São Paulo: Hedra, 2009.

13.9.10

Balanço



A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.


de Antonio Cicero, inédito em livro


6.9.10

A descoberta do mundo



que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.

22.7.10

Presto



Os dias despencam
aos pedaços. Logo será janeiro.

Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então (amarelas como teu cabelo)

e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,

a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,

no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro

está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,

a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis

em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis

enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios da Senador Vergueiro.


FERRAZ, Eucanaã. Rua do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

23.5.10

A vida é sonho (excerto)



Sai Clotaldo; fica Segismundo, só.


SEGISMUNDO (só) - É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular,
que o viver só é sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

CALDERÓN DE LA BARCA, Pedro. A vida é sonho. Trad. Renata Pallottini. São Paulo: Hedra, 2009.