20.1.13

Julguei que não voltaria a falar



Julguei que não voltaria a falar
desse verão onde o sol se escondia
entre a nudez
dos rapazes e a água feliz.

Imagens que já não doem
- risos, corridas, a brancura dos dentes,
ou a matutina estrela
ardendo no centro da nossa carne -

chegaram com a neve, tão rara
nestas paragens,
e como pousa a poeira,
sentaram-se ao lume vagarosas.

Aí estiveram, escutando o que traz
o vento. Até anoitecer.


ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.


6.1.13

Du côté de chez Swann (excerto)



Mas quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, solitários, mais frágeis mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor restam ainda por muito tempo, como almas, a recordar, a aguardar, a esperar, sobre a ruína de todo o resto, a carregar sem vergar, sobre a sua gotinha quase impalpável, o edifício imenso da lembrança. 


de Proust, na piauí de janeiro. Tradução de Mario Sergio Conti.


29.12.12

O Tejo



O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio: Poemas completos de A. Caeiro. In: Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.


25.12.12

Água marinha



Dois pedacinhos de mar
duas pedrinhas
de água
duas pedrinhas
de nada
teus olhos fazem existir o mar


VARELLA, Alex. Céu em cima / Mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.


21.12.12

O Embarque para Citera





L'Embarquement pour Cythère (1717)
Jean-Antoine Watteau 


16.12.12

Ulysses - P. 141



Olharomar. O tempo todo lá sem você: e sempre será, mundo sem fim.


JOYCE, Joyce. Ulysses. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. Tradução de Caetano W. Galindo.


14.12.12

Inicial



O mar azul e branco e as luzidias
Pedras - O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Dual. Lisboa: Editorial Caminho, 2010.


5.12.12

Aroma antigo da memória





PIGNATARI, Décio. Aroma antigo da memória. 2005.


28.11.12

Vivendo sob o fogo (3)



p. 623-624


Só vivo plenamente em meus poemas - não com as pessoas, e menos ainda (por mais estranho que possa parecer) com as que amo - estar e viver. Os amigos não sofrem por nossa causa, podemos dizer a eles toda a verdade, sem ter medo de atingir a carne viva. Eu queria você não apenas como um filho, não apenas como meu amado, mas ainda - como meu amigo: meu igual. É tempo, porém, de compreender que não devemos querer nada para nós próprios, nem mesmo sentir alegria pela plenitude de alguém, pois seria também amor por si próprio ("seu próximo - como você mesmo" - não: seu próximo - como ele mesmo); é tempo de admitir que o amor é o único e definitivo "não-ser" que temos nesta vida: não seja, senão obrigará outra pessoa a ser - "você a impedirá de viver" (de não-ser).


TSVETÁIEVA, Marina. Vivendo sob o fogo: confissões. São Paulo: Martins, 2008.


26.11.12

A festa



Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


MARQUES, Ana Martins. Da arte das armadilhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.