25.2.13
Por um novo catálogo de tipos
Por aqui tem feito D dias lindos
Procurar um outro AR
ALTERAR
E o meu ser se esgota na procura patológica
Do que nem sei o que é
E esse é
Não há nunca
Em parte alguma
Prazer algum
Mantra mito nenhum
Que me
Baste.
ALTERAR
SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
20.2.13
Pirata
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Mar. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
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17.2.13
Uma gaivota viesse
O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz
e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo,
quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?
De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,
o que nos parte,
o que nos corta,
mal fechamos a mala, mal abrimos a porta.
FERRAZ, Eucanaã. Sentimental. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
12.2.13
Londres
nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes. nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.
DOMINGOS, Manuel A. Mapa. Torres Vedras: Livrododia, 2008.
20.1.13
Julguei que não voltaria a falar
Julguei que não voltaria a falar
desse verão onde o sol se escondia
entre a nudez
dos rapazes e a água feliz.
Imagens que já não doem
- risos, corridas, a brancura dos dentes,
ou a matutina estrela
ardendo no centro da nossa carne -
chegaram com a neve, tão rara
nestas paragens,
e como pousa a poeira,
sentaram-se ao lume vagarosas.
Aí estiveram, escutando o que traz
o vento. Até anoitecer.
ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.
6.1.13
Du côté de chez Swann (excerto)
Mas quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, solitários, mais frágeis mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor restam ainda por muito tempo, como almas, a recordar, a aguardar, a esperar, sobre a ruína de todo o resto, a carregar sem vergar, sobre a sua gotinha quase impalpável, o edifício imenso da lembrança.
de Proust, na piauí de janeiro. Tradução de Mario Sergio Conti.
29.12.12
O Tejo
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio: Poemas completos de A. Caeiro. In: Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
25.12.12
Água marinha
Dois pedacinhos de mar
duas pedrinhas
de água
duas pedrinhas
de nada
teus olhos fazem existir o mar
VARELLA, Alex. Céu em cima / Mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.
21.12.12
16.12.12
Ulysses - P. 141
Olharomar. O tempo todo lá sem você: e sempre será, mundo sem fim.
JOYCE, Joyce. Ulysses. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. Tradução de Caetano W. Galindo.
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