12.1.15

Arte de navegar



Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.


25.12.14

Fim do céu



Sonha em jogar os olhos nas
profundezas da cidade próxima
sonha em dançar no abismo
em ignorar os dias que devoram
as coisas, os dias que engendram as coisas
sonha em levantar, em fluir como o mar
em apressar os segredos
começando um céu

no fim do céu.


ADONIS. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Tradução de Michel Sleiman.


16.12.14

Fragmento 168b



Mergulharam a lua
e as Plêiades: meia-
noite, a hora passa
e eu durmo sozinha.


SAFO. Fragmento 168b. Tradução de Antonio Cicero.


13.12.14

La notte / A noite






Michelangelo Antonioni, 1961



13.11.14

Mrs. Dalloway (excerto)




A vantagem de envelhecer, pensou Peter Walsh, saindo do Regent's Park com o chapéu na mão, era só esta; as paixões permaneciam tão fortes quanto antes, mas a gente dispunha - por fim! - daquele poder que confere o sabor supremo à existência - o poder de agarrar a experiência, de examiná-la por todos os lados, lentamente, sob a luz.


[The compensation of growing old, Peter Walsh thought, coming out of Regent's Park, and holding his hat in his hand, was simply this; that the passions remain as strong as ever, but one has gained - at last! - the power which adds the supreme flavour to existence - the power of taking hold of experience, of turning it round, slowly, in the light.]   



WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. São Paulo: Cosac Naify, 2013. Tradução de Claudio Alves Marcondes.



28.7.14

Amazônia



Não queira, Silviano, que eu cante a selva
amazônica ou mesmo o rio Amazonas,
cujo silêncio a fluir às minhas costas
no entanto escuto às vezes, imerso em trevas.
Em minhas veias, é certo, corre o sangue
selvagem das amazonas e os meus traços
caboclos traem os maranhões; mas trago,
como herança dos ancestrais, não saudade
da floresta, mas da cidade almejada.
A Amazônia quer versos heroicos e épicos,
não os meus líricos, eróticos, céticos
e tão frívolos que nem sequer reparam
se pararam nas palavras ou nas coisas
e não raro tomam aquelas por estas
e a árvore pelas florestas e aquela
pela palavra e por fim ficam nas moitas.
É verdade que me fascinam os rios
paradoxais e a figura de Orellana,
expulso por amazonas emboscadas
há muito tempo entre as florestas e os símbolos,
a cultuar Ares, o terrível deus
da guerra: terrível sim, porém não tanto
quanto Afrodite, que uma vez quis prová-lo
no leito e o domou e o dobrou e o comeu;
nem tão tremendo quanto Hefesto, o marido
da deusa, deus das técnicas e do fogo,
que, nem belo nem rápido, sendo coxo,
agarrou o adúltero Ares, o arisco,
e a dourada Afrodite na própria cama,
sobre a qual trançara inquebrantáveis fios
aracnídeos, deixando os amantes fixos
nessa fração de segundo que sonhavam
perpetuar; e que ao ser perpetuada
virou tortura: pois como ser repouso
o gozo, movimento vertiginoso,
cheio de fervor e suor, rumo ao nada?
Convidado por Hefesto, todo o Olimpo
assistiu ao espetáculo do enlace
de Ares e Afrodite e ecoou toda a tarde
a gargalhada dos deuses. A pedido
do deus do mar, porém, Hefesto os soltou.
Ares, humilhado, fugiu para a frígida
Trácia, e ela, com um sorriso, para a ilha
de Chipre, cercada de um mar furta-cor,
onde as graças lhe prepararam um banho
perfumado, esfregaram à sua pele
o óleo ambrosíaco com que a tez dos deuses
esplende, vestiram-lhe um robe... e reparo:
terríveis são, mais do que os deuses, Demódoco
a flagrar a cena inteira com seu estro,
e Homero, a nos prender em teias de versos
entre a Feácia e o Olimpo. Recordo-os
e esqueço a que ponto me perdi da selva
dos meus ancestrais. Que não me guardem mágoa
nossas amazonas. Filho da diáspora
e dos encontros fortuitos, o poema
me esclarece: toda origem é forjada
no caminho cujo destino é o meio.
Feito o Amazonas, surjo do deserto,
mas dos afluentes eu escolho as águas.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


9.7.14

A propósito do nada



sou
      para o outro
este corpo esta
      voz
sou o que digo
      e faço
      enquanto passo

mas
      para mim
só sou
      se penso que sou
enfim
se sou
      a consciência
      de mim

e quando
      vinda a morte
      ela se apague
serei o que alguém acaso
      salve
         do olvido

já que
         para mim
         (lume apagado)
nunca terei existido


GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.


16.5.14

Her dream / Berenice




I dreamed as in my bed I lay,
All night's fathomless wisdom come,
That I had shorn my locks away
And laid them on Love's lettered tomb:
But something bore them out of sight
In a great tumult of the air,
And after nailed upon the night
Berenice's burning hair.

1929



Sonhei que a noite se fez luz
E, aberto o céu de par em par,
Que os meus cabelos eu depus
Sobre um sepulcro inscrito: Amar.
E alguém levou-os sem que eu visse
Num grande turbilhão de ar
E foi pregar uma fogueira
No breu da noite - a cabeleira
Branca, a brilhar, de Berenice.

1929



YEATS, W. B. Her dream. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de. Linguaviagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.



28.4.14

Os pássaros de Londres



Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos


CESARINY, Mário. Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.


18.4.14

Tempo de não



Exausta fujo as arenas do puro intolerável
Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado
A cidade onde habito é rica de desastres
Embora exista a praia lisa que sonhei


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Mar. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.