2.10.15

Manuel



Fui ter com ele à Feira Popular, donde minutos
depois partimos para Sintra. Lembro-me
de o carro avançar à velocidade do meu sangue.
No Guincho, onde momentos antes
de o sol se pôr parámos, vi o mar
ganhar no espírito dele outra ondulação.
De nós, assim o soube, erguem paisagens
as viagens. Entre a pele e o coração alçam-se as pontes.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.



23.9.15

Terror de te amar



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Terror de te amar. In: PEDROSA, Inês. (org.). Poemas de amor. Lisboa: Dom Quixote, 2005.



18.3.15

O mundo estava no rosto da amada



O mundo estava no rosto da amada,
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.


RILKE, Rainer Maria. Welt war in dem Antlitz. In: CAMPOS, Augusto de. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.


12.1.15

Arte de navegar



Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.


25.12.14

Fim do céu



Sonha em jogar os olhos nas
profundezas da cidade próxima
sonha em dançar no abismo
em ignorar os dias que devoram
as coisas, os dias que engendram as coisas
sonha em levantar, em fluir como o mar
em apressar os segredos
começando um céu

no fim do céu.


ADONIS. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Tradução de Michel Sleiman.


16.12.14

Fragmento 168b



Mergulharam a lua
e as Plêiades: meia-
noite, a hora passa
e eu durmo sozinha.


SAFO. Fragmento 168b. Tradução de Antonio Cicero.


13.12.14

La notte / A noite






Michelangelo Antonioni, 1961



13.11.14

Mrs. Dalloway (excerto)




A vantagem de envelhecer, pensou Peter Walsh, saindo do Regent's Park com o chapéu na mão, era só esta; as paixões permaneciam tão fortes quanto antes, mas a gente dispunha - por fim! - daquele poder que confere o sabor supremo à existência - o poder de agarrar a experiência, de examiná-la por todos os lados, lentamente, sob a luz.


[The compensation of growing old, Peter Walsh thought, coming out of Regent's Park, and holding his hat in his hand, was simply this; that the passions remain as strong as ever, but one has gained - at last! - the power which adds the supreme flavour to existence - the power of taking hold of experience, of turning it round, slowly, in the light.]   



WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. São Paulo: Cosac Naify, 2013. Tradução de Claudio Alves Marcondes.



28.7.14

Amazônia



Não queira, Silviano, que eu cante a selva
amazônica ou mesmo o rio Amazonas,
cujo silêncio a fluir às minhas costas
no entanto escuto às vezes, imerso em trevas.
Em minhas veias, é certo, corre o sangue
selvagem das amazonas e os meus traços
caboclos traem os maranhões; mas trago,
como herança dos ancestrais, não saudade
da floresta, mas da cidade almejada.
A Amazônia quer versos heroicos e épicos,
não os meus líricos, eróticos, céticos
e tão frívolos que nem sequer reparam
se pararam nas palavras ou nas coisas
e não raro tomam aquelas por estas
e a árvore pelas florestas e aquela
pela palavra e por fim ficam nas moitas.
É verdade que me fascinam os rios
paradoxais e a figura de Orellana,
expulso por amazonas emboscadas
há muito tempo entre as florestas e os símbolos,
a cultuar Ares, o terrível deus
da guerra: terrível sim, porém não tanto
quanto Afrodite, que uma vez quis prová-lo
no leito e o domou e o dobrou e o comeu;
nem tão tremendo quanto Hefesto, o marido
da deusa, deus das técnicas e do fogo,
que, nem belo nem rápido, sendo coxo,
agarrou o adúltero Ares, o arisco,
e a dourada Afrodite na própria cama,
sobre a qual trançara inquebrantáveis fios
aracnídeos, deixando os amantes fixos
nessa fração de segundo que sonhavam
perpetuar; e que ao ser perpetuada
virou tortura: pois como ser repouso
o gozo, movimento vertiginoso,
cheio de fervor e suor, rumo ao nada?
Convidado por Hefesto, todo o Olimpo
assistiu ao espetáculo do enlace
de Ares e Afrodite e ecoou toda a tarde
a gargalhada dos deuses. A pedido
do deus do mar, porém, Hefesto os soltou.
Ares, humilhado, fugiu para a frígida
Trácia, e ela, com um sorriso, para a ilha
de Chipre, cercada de um mar furta-cor,
onde as graças lhe prepararam um banho
perfumado, esfregaram à sua pele
o óleo ambrosíaco com que a tez dos deuses
esplende, vestiram-lhe um robe... e reparo:
terríveis são, mais do que os deuses, Demódoco
a flagrar a cena inteira com seu estro,
e Homero, a nos prender em teias de versos
entre a Feácia e o Olimpo. Recordo-os
e esqueço a que ponto me perdi da selva
dos meus ancestrais. Que não me guardem mágoa
nossas amazonas. Filho da diáspora
e dos encontros fortuitos, o poema
me esclarece: toda origem é forjada
no caminho cujo destino é o meio.
Feito o Amazonas, surjo do deserto,
mas dos afluentes eu escolho as águas.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


9.7.14

A propósito do nada



sou
      para o outro
este corpo esta
      voz
sou o que digo
      e faço
      enquanto passo

mas
      para mim
só sou
      se penso que sou
enfim
se sou
      a consciência
      de mim

e quando
      vinda a morte
      ela se apague
serei o que alguém acaso
      salve
         do olvido

já que
         para mim
         (lume apagado)
nunca terei existido


GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.