23.2.12

O gato



Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias
De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés à cabeça, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena.


BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal: Edição Bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira.

para Bruno Cosentino e Alba Maria

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