Mostrando postagens com marcador antonio cicero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador antonio cicero. Mostrar todas as postagens

18.12.18

felicidade



Felicidade é esse acaso
Que te faz o que és.
Nada queres dizer.
Nada deves a trabalho
Ou a dever.
Perverso
Brincas.
Criatura de um só dia
Absoluto
És festa
Serás luto.
És festa sonho carne frêmito.
Não mereces este prazer
Nem eu mereço teu amor:
Tudo entre nós é gratuito
E muito
E parte.
Cardumes de sol ao mar
Quase sem arte
Quero-te feliz.


CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.


16.3.18

voa



em tempos de desumanidade no Brasil, eu abomino quem prefere as armas de metal.
como disse Maiakovski, "Nosso arsenal é o canto. / Metal? São timbres que tinem".

hoje à noite, Antonio Cicero toma posse na Academia Brasileira de Letras. "alguém se reconhece poeta e decide dedicar-se à poesia", diz Cicero no livro "A poesia e a crítica", "a partir do momento em que se apaixona por um ou por vários poemas de verdade". a importância do cânone literário será o norte de seu discurso de posse, como antecipa a Folha de São Paulo em página inteira que também celebra a ótima coincidência de que, justo nessa sexta-feira, Marina Lima lança seu novo disco, que tem um título bonito: "Novas famílias".

graças ao Duda Leite, soube que o jornal oferece, na versão digital da matéria, uma playlist com canções de Cicero de diferentes épocas, da qual tenho a honra de fazer parte. fui dormir triste com o Brasil, mas acordei feliz. saúdo meu grande amigo, a poesia e o lance do poema:

"Pisa sobre estas esplêndidas ruínas e,
se não há caminhos,
voa."

AN.





16.12.14

Fragmento 168b



Mergulharam a lua
e as Plêiades: meia-
noite, a hora passa
e eu durmo sozinha.


SAFO. Fragmento 168b. Tradução de Antonio Cicero.


28.7.14

Amazônia



Não queira, Silviano, que eu cante a selva
amazônica ou mesmo o rio Amazonas,
cujo silêncio a fluir às minhas costas
no entanto escuto às vezes, imerso em trevas.
Em minhas veias, é certo, corre o sangue
selvagem das amazonas e os meus traços
caboclos traem os maranhões; mas trago,
como herança dos ancestrais, não saudade
da floresta, mas da cidade almejada.
A Amazônia quer versos heroicos e épicos,
não os meus líricos, eróticos, céticos
e tão frívolos que nem sequer reparam
se pararam nas palavras ou nas coisas
e não raro tomam aquelas por estas
e a árvore pelas florestas e aquela
pela palavra e por fim ficam nas moitas.
É verdade que me fascinam os rios
paradoxais e a figura de Orellana,
expulso por amazonas emboscadas
há muito tempo entre as florestas e os símbolos,
a cultuar Ares, o terrível deus
da guerra: terrível sim, porém não tanto
quanto Afrodite, que uma vez quis prová-lo
no leito e o domou e o dobrou e o comeu;
nem tão tremendo quanto Hefesto, o marido
da deusa, deus das técnicas e do fogo,
que, nem belo nem rápido, sendo coxo,
agarrou o adúltero Ares, o arisco,
e a dourada Afrodite na própria cama,
sobre a qual trançara inquebrantáveis fios
aracnídeos, deixando os amantes fixos
nessa fração de segundo que sonhavam
perpetuar; e que ao ser perpetuada
virou tortura: pois como ser repouso
o gozo, movimento vertiginoso,
cheio de fervor e suor, rumo ao nada?
Convidado por Hefesto, todo o Olimpo
assistiu ao espetáculo do enlace
de Ares e Afrodite e ecoou toda a tarde
a gargalhada dos deuses. A pedido
do deus do mar, porém, Hefesto os soltou.
Ares, humilhado, fugiu para a frígida
Trácia, e ela, com um sorriso, para a ilha
de Chipre, cercada de um mar furta-cor,
onde as graças lhe prepararam um banho
perfumado, esfregaram à sua pele
o óleo ambrosíaco com que a tez dos deuses
esplende, vestiram-lhe um robe... e reparo:
terríveis são, mais do que os deuses, Demódoco
a flagrar a cena inteira com seu estro,
e Homero, a nos prender em teias de versos
entre a Feácia e o Olimpo. Recordo-os
e esqueço a que ponto me perdi da selva
dos meus ancestrais. Que não me guardem mágoa
nossas amazonas. Filho da diáspora
e dos encontros fortuitos, o poema
me esclarece: toda origem é forjada
no caminho cujo destino é o meio.
Feito o Amazonas, surjo do deserto,
mas dos afluentes eu escolho as águas.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


4.12.13

Leblon



O menino olha para o mar:
lá no fundo ele se funde ao céu
mas atrás há um muro e aquém do olhar
pulsam sangue e morro e mata e breu.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


14.10.13

Sobre o pobre B. B.



Eu, Bertolt Brecht, sou das florestas negras.
Minha mãe me trouxe para as cidades
Dentro do ventre. E o frio das florestas
Estará comigo ao me cobrir a laje.

Na cidade de asfalto estou em casa e a caráter,
Com todos os últimos sacramentos
Ministrados: jornais, tabaco, conhaque:
Desconfiado, indolente e enfim satisfeito.

Sou amável com os outros. E visto
Meu chapéu-coco, como todo o mundo.
Digo: são bichos de cheiro esquisito
E digo: e daí? Também sou, no fundo.

Às vezes, nas cadeiras de balanço,
Coloco algumas moças, de manhã,
E digo: em mim vocês têm, eu garanto,
Alguém em quem não podem confiar.

À tarde me reúno com colegas.
Tratamo-nos de “gentleman”, então.
Eles dizem, com os pés à minha mesa:
As coisas vão melhorar. E não pergunto: quando.

Na madrugada cinza, abetos mijam
E piam os pássaros, que são seus vermes.
Na cidade, meu copo se esvazia,
Largo o charuto e durmo um sono leve.

Assentamo-nos, uma geração leviana,
Em prédios que quiséramos indestrutíveis
(Assim construímos os arranha-céus da ilha de Manhattan
E as finas antenas sobre o Atlântico a nos divertirem).

Destas cidades ficará quem as atravessou, o vento!
A casa faz feliz quem nela come: quem a esvazia.
Sabemos sermos efêmeros
E que depois de nós o que virá será sem valia.

Nos terremotos vindouros, que não seja meu fado
Deixar por amargura o meu Virginia se apagar,
Eu, Bertolt Brecht, largado nas cidades de asfalto,
Oriundo das florestas negras, no ventre da mãe, tempos atrás.


Vom armen B.B., de Bertolt Brecht. Tradução de Antonio Cicero.


30.9.13

O fim da vida



Conhece da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


4.10.12

A cidade e os livros



O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.


CICERO, Antonio. A Cidade e os Livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.


20.8.12

Longe



A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,
é mesmo errático meu rumo.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


26.7.12

O fim da vida



Conhece da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


27.6.12

Sometimes with one I love / Às vezes com quem eu amo



Sometimes with one I love, I fill myself with rage, for fear I effuse unreturn’d love;
But now I think there is no unreturn’d love — the pay is certain, one way or another;
(I loved a certain person ardently, and my love was not return’d;
Yet out of that, I have written these songs.)


Às vezes com que eu amo 
fico com raiva e reclamo 
pensando não ter retorno 
o amor sem fim que entorno 

No entanto sempre retorna 
desta ou daquela forma 
o amor que a gente derrama 
quando é verdade que ama

Amei com paixão alguém 
e perdi as ilusões 
mas hoje esse amor revém 
e dele é que faço canções


WHITMAN, Walt. Sometimes with one I love.

Tradução de Antonio Cicero. In: Olhos felizes. Marina Lima. Ariola: 1980. LP


17.5.12

Os ilhéus



Uma sombra pode vir do céu,
imponderável como as nuvens,
e cair no dia feito um véu
ou a tampa de um ataúde.
E nada impede que se afundem
neo-Atlântidas e arranha-céus
ou que nossas cidades-luzes
submersas se tornem mausoléus.
Em arquipélagos, os ilhéus
pisarão ruínas ao lume
do mar, maravilhados e incréus
e devotados a insolúveis
questões, espuma, areia, fúteis
e ardentes caminhadas ao léu.


CICERO, Antonio. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.


6.5.12

Livro de sombras



Para onde vou, de onde vim? 
Não sei se me acho ou me extravio. 
Ariadne não fia o seu fio 
à frente, mas atrás de mim. 
Não será a saída um desvio 
e o caminho o verdadeiro fim? 

Não é hora de regressos
Não é hora

É certo que me perco em sombras
e que, isolado em minha ilha,
já não me atingem as notícias
dos jornais a falar de bolsas,

modas, cidades que soçobram,
crimes, imitações da vida
ou da morte televisiva,
quadrilhas, teias penelópicas

de horrores ou de maravilhas
que dia a dia se desfiam
e fiam sem princípio ou fim
novíssimas novas artísticas,
científicas, estatísticas...

E há na noite quente um jasmim.

É aqui, mais real que as notícias, na própria
matéria, na dobradura de uma folha
em que se refolha este meu coração
babilônico, na configuração
da mancha gráfica sobre a tessitura
do papel tensionado, ou onde se apura
o lusco-fusco produzido por linhas
e entrelinhas, entre o preto e o branco e o cinza,

onde cada ideia, cada ponto e vírgula
dos trabalhos e das noites se confunde
com miríades de pontos de retícula
e meios-tons de clichês, entre o passado
que jamais está passado e alguns volumes,
linhas e planos apenas esboçados,

que súbito os elementos mais dispersos
se articulam, claro-escuro filme negro,
entre a pura matemática, o acaso
e a arte (esta árvore já foi vestido
de mulher): onde meu delírio é mais preciso,
transparece o meu jornal imaginário.

Para onde vou, de onde vim? 
Não sei se me acho ou me extravio. 
Ariadne não fia o seu fio 
à frente, mas atrás de mim. 
Não será a saída um desvio 
E o caminho o verdadeiro fim?


CICERO, Antonio. Livro de Sombras - Pintura, Cinema, Poesia. Rio de Janeiro: +2 Editora, 2010.

13.9.10

Balanço



A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.


de Antonio Cicero, inédito em livro