27.3.13

Beats



THE FLOWER

I think I grow tensions
like flowers
in a wood where
nobody goes.

Each wound is perfect,
encloses itself in a tiny
imperceptible blossom,
making pain.

Pain is a flower like that one,
like this one,
like that one,
like this one.


A FLOR

Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque
onde não vai ninguém.

Cada ferida é perfeita,
fecha-se numa minúscula
imperceptível pétala
criando dor.

Dor é uma flor como esta,
como aquela,
como esta,
como aquela.



CREELEY, Robert. The flower / A flor. In: COHN, Sergio (trad. e org.). Poesia Beat. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2012.


17.3.13

Du côté de chez Swann (excerto)



Mas nem mesmo com referência às mais insignificantes coisas da vida somos nós um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de que cada qual não tem mais do que tomar conhecimento, como se se tratasse de um livro de contas ou de um testamento; nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos "ver uma pessoa conhecida" é em parte um ato intelectual. Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo com todas as noções que temos a seu respeito; e, para o aspecto total que dele nos representamos, certamente contribuem essas noções com a maior parte. Acabam elas por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal modo nuançar a sonoridade da voz, como se esta não fosse mais que um transparente invólucro, que, a cada vez que vemos aquele rosto e ouvimos aquela voz, são essas noções o que olhamos e escutamos.


PROUST, Marcel. No caminho de Swann. São Paulo: Globo, 2006, p. 39-40. Tradução de Mario Quintana.


11.3.13

Canção de amor ao visível



Janelas abertas sobre o mundo,
tanto mar disponível,
todo mar é visível.
Esta é uma canção de amor ao visível:
o que não é visível, não é.


VARELLA, Alex. Céu em cima / Mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.


9.3.13

Inocentes do Leblon (2)





não sabem de você



Inocentes do Leblon



Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
Trouxe imigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.