30.5.12

Explico-te



Explico-te
o que é um eclipse:

dois navios, maralto,
miram-se no rosto

um do outro, de um modo que
já não sabem, ao certo, o que são:

se dois homens,
se duas mulheres,

se dois sóis ou duas conchas
que se abrissem

para tecer com a saliva
uma da outra

a árvore rara do instante,
que não vive mais que

o tempo estreito de um laço
perfeito entre dois

touros ou duas flores,
entre dois lugares

retornados ao um.


FERRAZ, Eucanaã. Desassombro. Rio de Janeiro: Sette Letras, 2002.


27.5.12

Ilha Grande




deitados no píer aprendemos
a sonhar usando o céu de cobertor

esculpimos rocha barquinho casinha
pra guardar estrelas-do-mar

lembrar dá vontade de ser ilha voar
gritar sorrir nadar dentro de mim



MELLO, Ramon. Vinis mofados. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.

17.5.12

Os ilhéus



Uma sombra pode vir do céu,
imponderável como as nuvens,
e cair no dia feito um véu
ou a tampa de um ataúde.
E nada impede que se afundem
neo-Atlântidas e arranha-céus
ou que nossas cidades-luzes
submersas se tornem mausoléus.
Em arquipélagos, os ilhéus
pisarão ruínas ao lume
do mar, maravilhados e incréus
e devotados a insolúveis
questões, espuma, areia, fúteis
e ardentes caminhadas ao léu.


CICERO, Antonio. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.


9.5.12

Uma vez atravessei uma cidade populosa / Once I passed through a populous city



Uma vez atravessei uma cidade populosa imprimindo
                                          no meu cérebro, para uso futuro,
seus espetáculos, sua arquitetura, trajes e tradições.
Mas agora de tudo daquela cidade me recordo só de
                                                                        um homem
que por ali vagabundeou comigo e que me amou.
Dia após dia, noite após noite, permanecemos juntos.
Tudo o mais já foi esquecido por mim - me recordo
                                                              só de um homem
rude e ignorante que, quando parti, segurou minha
                                                              mão muito tempo,
boca não disse palavra, triste e trêmulo.


Once I passed through a populous city

Once I passed through a populous city, imprinting on my brain, for future use, its shows, architecture, customs and traditions

But now of all that city I remember only the man who wandered with me there, for love of me.

Day by day, and night by night, we were together.

All else has long been forgotten by me — I remember, I say, only one rude and' ignorant man who, when I departed, long and long held me by the hand, with silent lips, sad and tremulous.



WHITMAN, Walt. Uma vez atravessei uma cidade populosa. Tradução de Waly Salomão. In: SALOMÃO, Waly. Pescados vivos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.


6.5.12

Livro de sombras



Para onde vou, de onde vim? 
Não sei se me acho ou me extravio. 
Ariadne não fia o seu fio 
à frente, mas atrás de mim. 
Não será a saída um desvio 
e o caminho o verdadeiro fim? 

Não é hora de regressos
Não é hora

É certo que me perco em sombras
e que, isolado em minha ilha,
já não me atingem as notícias
dos jornais a falar de bolsas,

modas, cidades que soçobram,
crimes, imitações da vida
ou da morte televisiva,
quadrilhas, teias penelópicas

de horrores ou de maravilhas
que dia a dia se desfiam
e fiam sem princípio ou fim
novíssimas novas artísticas,
científicas, estatísticas...

E há na noite quente um jasmim.

É aqui, mais real que as notícias, na própria
matéria, na dobradura de uma folha
em que se refolha este meu coração
babilônico, na configuração
da mancha gráfica sobre a tessitura
do papel tensionado, ou onde se apura
o lusco-fusco produzido por linhas
e entrelinhas, entre o preto e o branco e o cinza,

onde cada ideia, cada ponto e vírgula
dos trabalhos e das noites se confunde
com miríades de pontos de retícula
e meios-tons de clichês, entre o passado
que jamais está passado e alguns volumes,
linhas e planos apenas esboçados,

que súbito os elementos mais dispersos
se articulam, claro-escuro filme negro,
entre a pura matemática, o acaso
e a arte (esta árvore já foi vestido
de mulher): onde meu delírio é mais preciso,
transparece o meu jornal imaginário.

Para onde vou, de onde vim? 
Não sei se me acho ou me extravio. 
Ariadne não fia o seu fio 
à frente, mas atrás de mim. 
Não será a saída um desvio 
E o caminho o verdadeiro fim?


CICERO, Antonio. Livro de Sombras - Pintura, Cinema, Poesia. Rio de Janeiro: +2 Editora, 2010.

"Bichano de Cheshire"



Ao ver Alice, o Gato só sorriu. Parecia amigável, ela pensou; ainda assim, tinha garras muito longas e um número enorme de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.

"Bichano de Cheshire", começou, muito tímida, pois não estava nada certa de que esse nome iria agradá-lo; mas ele só abriu um pouco mais o sorriso. "Bom, até agora ele está satisfeito", pensou e continuou: "Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?"

"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.

"Não me importa muito para onde", disse Alice.

"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.

"Contanto que eu chegue a algum lugar", Alice acrescentou à guisa de explicação.

"Oh, isso você certamente vai conseguir", afirmou o Gato, "desde que ande o bastante."


CARROLL, L. Aventuras de Alice no País das Maravilhas; Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.