8.5.18

paixão do olhar



não sei dirigir, não sei andar de bicicleta. nunca quis nem pretendo ter um carro. adoraria ter uma bicicleta, mas admito que, por um lado, a covardia da infância persiste, e por outro, infelizmente, é sabido que as cidades brasileiras ainda parecem campos minados contra esse tipo de transporte. o fato é que na maioria das vezes me desloco ou caminhando ou utilizando o transporte público. quando estou em uma cidade que não conheço, para longas distâncias prefiro os transportes de superfície, para não perder nenhum detalhe e compreender melhor a geografia do lugar. ontem e hoje, aproveitando que estou em Belém, flanei por ruas onde nunca mais havia estado dessa forma. as caminhadas tácitas, onde quer que eu esteja, além de um bom exercício, são um ótimo momento para tomar decisões — das práticas às abstratas, como tentar organizar meu pensamento sobre algum assunto ou encontrar soluções para canções não terminadas. nesse sentido, desconfio que não há coisa melhor para o esclarecimento do que exercitar o olhar com os pés no chão.

AN


2.5.18

mão única



— é proibido
voltar atrás
e chorar.


In: FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.