27.8.12

A autobiografia de Alice B. Toklas (excerto)



Bruce, Patrick Henry Bruce, foi um dos primeiros e mais ardentes alunos de Matisse e logo estava fazendo pequenos Matisses, mas não estava feliz. Ao explicar sua infelicidade, disse a Gertrude Stein, falam das tristezas dos grandes artistas, da trágica infelicidade dos grandes artistas mas afinal de contas eles são grandes artistas. Um pequeno artista tem toda a infelicidade trágica e as tristezas de um grande artista e não é um grande artista.


STEIN, Gertrude. A Autobiografia de Alice B. Toklas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de José Rubens Siqueira.


20.8.12

Longe



A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,
é mesmo errático meu rumo.


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.


15.8.12

Trans



Na Belém de-bolso,
pouca, de pôquete, vinda
na bagagem
contigo emigrada,
cabia

o lugar aqui súbito
exorbitado num ,
toda a poesia-mestra de Max Martins
anterior ao Para ter onde ir,
um ramo olente de cidreira seca,
um estoque de sotaques,
tua estrela de contrabando no bolso,
hum mil dólares na sola
do sapato – e
uma última vez Val-de-Cãs
na despedida

em direção à
escala de sete noites
em Caiena,
caminho de ida
(a bordo de teu destino,
estrela-passageira, cruzando
à noite a Selva queimada
sob a asa, ala
de não-fumantes,
reclinado sob o luminoso
“TUDO É MAIS TARDE”)
sem volta:

foi tudo
(um tudo) que havia
a declarar.


CARVALHO, Age de. Trans. São Paulo: Cosac Naify, 2011.


8.8.12

Água-forte



À beira de você, toda a paisagem
se resume a isto: nenhuma urgência

que seu rosto brilhe, mas ele arde
como se quisesse compensar em luz

o seu silêncio. Gastaria a vida assim,
à orla do céu que reflete

na água quieta que rola no intervalo
entre nós. Demoro-me aqui,

à roda desse engano,
dessa infinitamente triste alegria.

E quanto mais me sinto afogar,
mais permaneço,

se o amador a nadar para fora
prefere morrer na coisa amada.


FERRAZ, Eucanaã. Cinemateca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


7.8.12

Retrato de Gertrude Stein




Picasso nunca tinha feito ninguém posar para ele desde os dezesseis anos de idade, estava com vinte e quatro e Gertrude Stein nunca tinha pensado em ter seu retrato pintado, e nenhum deles dois sabe como a coisa aconteceu. De qualquer forma aconteceu e ela posou para ele para esse retrato noventa vezes e muita coisa aconteceu nesse meio-tempo.

***

Picasso e Fernande [Olivier] foram jantar, Picasso nessa época era o que minha querida amiga e colega de escola, Nellie Jacot, chamava de um engraxate bonito. Ele era magro moreno, vivo com grandes olhos de poças e violento mas não de um modo áspero. Estava sentado ao lado de Gertrude Stein e ela pegou um pedaço de pão. Isto, disse Picasso arrancando o pão com violência, este pedaço de pão é meu. Ela riu e ele fez um ar de submisso. Foi o começo da intimidade deles.

***

Então aconteceu a primeira pose. O ateliê de Picasso eu já descrevi. Nessa época havia ainda mais desordem, mais entra e sai, mais fogo vivo na estufa, mais comida e mais interrupções. Havia a grande poltrona de braços quebrada em que Gertrude Stein posou. Havia um sofá onde todo mundo sentava e dormia. Havia uma cadeirinha de cozinha em que Picasso sentava para pintar, havia um grande cavalete e havia muitas telas grandes. Era o auge do final da fase arlequim quando as telas eram enormes, as figuras também, e os grupos.

***

Fernande estava como sempre, muito grande, muito bonita e muito graciosa. Ela se ofereceu para ler em voz alta as histórias de La Fontaine para divertir Gertrude Stein enquanto Gertrude Stein posava. Ela assumiu a pose, Picasso sentou muito ereto em sua cadeira e muito perto da tela, com uma palheta muito pequena que era de uma cor marrom acizentada uniforme, misturou mais um pouco de marrom acizentado e a pintura começou. Foi a primeira de umas oitenta ou noventa poses.


STEIN, Gertrude. A Autobiografia de Alice B. Toklas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Tradução de José Rubens Siqueira.

*Tela de Pablo Picasso, 1906.


Página LXXVII




Quando ela vem será que deixa a cozinha suja.
Quando ela vem será que lava a prata.
Quando ela vem será que todos dizem como vai você.
Isto parece muito pouco depois de tudo.


trecho de Gertrude Stein, de The King Or Something (The Public Is Invited To Dance), em tradução de Júlio Castañon Guimarães, retirado daqui.

5.8.12

Angústia



Esta noite eu não vim vencer teu corpo, harpia,
Vórtice do pecado, ou cevar no desejo
Dos teus cabelos vis um lívido lampejo,
Sob o tédio sem fim que o beijo prenuncia.

Só demando ao teu leito o sono em que te estiras,
Sob as cortinas do remorso reclinada,
E que podes gozar após tantas mentiras,
Tu que ainda sabes mais que os mortos sobre o nada.

Pois o Vício a roer minha nata nobreza
A ti e a mim marcou-nos de esterilidade,
Mas se teu seio tem tão pétrea natureza

No coração que dente algum de crime o invade,
Eu fujo em meus lençóis, hirto, sem cor, sem voz,
Com medo de morrer quando me deito a sós.


MALLARMÉ, Stéphane. Angústia. In: CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.


2.8.12

À espera do grande dia




Grande vida que tudo dás e tudo tomas
nem sequer a lembrança ficará em nossos ossos
nem sequer a música do violino de Mendelssohn.


TENORIO, Harold Alvarado. Summa del Cuerpo. Bogotá: Deriva Ediciones, 2002. Tradução de Antonio Cicero.


1.8.12

Balanços



VI

É isto que me cabe.
Dentro disto é necessário caber
até que tudo acabe.

Mas há nisso uma espécie de prazer,
uma volúpia esguia,
impalpável, difícil de dizer,

feito uma melodia
que se escutou e depois se esqueceu,
porém retorna um dia,

inconfundível: sim, este sou eu,
e eis aqui o palácio
que construí, e agora é todo meu:

um só andar, um passo
de frente e um de fundo. É um bom espaço.


BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.