a vida segue
sempre nesse vai e vem
que não passa
das ondas do amor
gira
roda
como um pierrot
enfrentar
ainda causa tanto medo
e fugir é bem pior:
voltei pra te dizer
que nessa guerra
não há vencedor
M.L.
8.2.10
um pierrot apaixonado
2.2.10
qual a função do poeta?
publico a seguir um trecho de uma entrevista concedida por Antonio Cicero à revista carioca Azougue.
Azougue - No Brasil de hoje, talvez no mundo, parece haver um duplo fenômeno de proliferação dos poetas e de diminuição da circulação da poesia (por exemplo, no debate público e no mercado). Uma das possíveis explicações para isso é a resistência que a poesia tem de se tornar um produto mercantil, ou seja, de ser tornar objeto da cultura de massas. Ao mesmo tempo, numa sociedade de consumo e laica, parece não haver mais uma função social para o poeta, substituído por outros personagens. A poesia, compreendida como a arte de criar poemas, se tornou anacrônica?
AC: Parece-me que a poesia escrita sempre será – pelo menos em tempo previsível – coisa para poucas pessoas. É que ela exige muito do seu leitor. Para ser plenamente apreciado, cada poema deve ser lido lentamente, em voz baixa ou alta, ou ainda aural, como diz o poeta Jacques Roubaud. Alguns de seus trechos, ou ele inteiro, devem ser relidos, às vezes mais de uma vez. Há muitas coisas a serem descobertas num poema, e tudo nele é sugestivo: os sentidos, as alusões, a sonoridade, o ritmo, as relações paronomásicas, as aliterações, as rimas, os assíndetos, as associações icônicas etc. Todos os componentes de um poema escrito podem (e devem) ser levados em conta. Muitos deles são interrelacionados. Tudo isso deve ser comparado a outros poemas que o leitor conheça. E, de preferência, o leitor deve ser familiarizado com os poemas canônicos. Como eu disse na resposta a outra pergunta, o leitor deve convocar e deixar que interajam uns com os outros, até onde não puder mais, todos os recursos de que dispõe: razão, intelecto, experiência, cultura, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor etc. Sem isso tudo, a leitura do poema não compensa: é uma chatice. Um quadro pode ser olhado en passant; um romance, lido à maneira “dinâmica”; uma música, ouvida distraidamente; um filme, uma peça de teatro, um ballet, idem. Um poema, não. Nada mais entediante do que a leitura desatenta de um poema. Quanto melhor ele for, mais faculdades nossas, e em mais alto grau, são por ele solicitadas e atualizadas. É por isso que muita gente tem preguiça de ler um poema, e muita gente jamais o faz. Os que o fazem, porém, sabem que é precisamente a exigência do poema – a atualização e a interação das nossas faculdades – que constitui a recompensa (incomparável) que ele oferece ao seu leitor. Mas os bons poemas são raridades. A função do poeta é fazer essas raridades. Felizmente elas são anacrônicas, porque nos fazem experimentar uma temporalidade inteiramente diferente da temporalidade utilitária em que passamos a maior parte das nossas vidas.
1.2.10
música do norte
A.N.
28.1.10
procelária
é vista quando há vento e grande vaga
ela faz o ninho no rolar da fúria
e voa firme e certa como bala
as suas asas empresta à tempestade
quando os leões do mar rugem nas grutas
sobre os abismos passa e vai em frente
ela não busca a rocha o cabo o cais
mas faz da insegurança a sua força
e do risco de morrer seu alimento
por isso me parece a imagem justa
para quem vive e canta no mau tempo
Sophia de Mello Breyner
13.1.10
canção II
porque tu sabes que é de poesia
minha vida secreta. tu sabes, Dionísio,
que a teu lado te amando,
antes de ser mulher sou inteira poeta.
e que o teu corpo existe porque o meu
sempre existiu cantando. meu corpo, Dionísio,
é que move o grande corpo teu
ainda que tu me vejas extrema e suplicante
quando amanhece e me dizes adeus.
Hilda Hilst
5.1.10
ecos
E eu canto
porque é esse o destino
da minha garganta.
E canto
porque criança aprendi
nas feiras: ave e mulher
cantam melhor na cegueira.
HILST, Hilda. Cantares. São Paulo: Globo, 2004.

