25.8.16

presente (antonio cicero 70)



quando tinha 13 anos, descobri na estante de discos do meu pai que nasci em um país onde não há fronteiras entre a poesia e a canção popular. por causa dos poetas-letristas, comecei a me expressar por meio da música. e é por eles que hoje faço música.


por mais que goste de cantar, considero que sou essencialmente um compositor. nunca havia pensado em fazer um disco que não fosse só de canções minhas. acontece que, quando tinha 16 anos, conheci antonio cicero em sua fila de autógrafos em belém. poderia ter sido mais um encontro, como tantos que já tive com alguns dos meus ídolos. poderia ter sido mais uma pessoa em uma fila pedindo um autógrafo em um livro. sem saber explicar exatamente o porquê, não foi assim. começamos a nos corresponder por e-mail e nos tornamos amigos. não esqueço a primeira vez que estive no rio de janeiro e fui com ele e marcelo pies a uma exposição com "bichos" de lygia clark no mam. depois, mudei para lá e fomos praticamente vizinhos. quando vim para são paulo, parece que a distância nos aproximou, porque fizemos um livro, shows e novas canções.

além do poeta que me ensina a ler poesia, cicero é o filósofo que organiza a minha cabeça e o amigo sempre presente, com quem não vejo a hora de fazer qualquer coisa, uma obra de arte ou uma grande bobagem, que me dá dicas de tradução, de alemão, de viagens, que me liga para ler poesia - às vezes, estou no meio da rua, mas procuro imediatamente o lugar mais silencioso possível! - e, principalmente, que me mostra como podemos ser mais sábios e mais justos.

encontros assim, baseados em identificação, respeito e amizade, valem uma vida. foi por isso que aceitei o convite do zé pedro para gravar esse disco. eu não faria um disco sobre outro compositor que não fosse antonio cicero. é um olhar particular sobre a obra de meu querido amigo, para celebrar o nosso presente juntos, que me honra, inspira e dá segurança para encarar o futuro sem medo nem esperança.

o álbum já está disponível em lojas, plataformas de streaming e agora também no youtube:





5.7.16

agora que de novo



O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproxi-
mo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.

Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória adentro.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.


19.5.16

ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro / as i lay with my head in your lap, camerado



Ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro,
A confissão que fiz eu reafirmo, o que disse a você e o ar livre eu reafirmo,
Sei que sou inquieto e torno inquietos os demais,
Sei que minhas palavras são armas, carregadas de perigo, carregadas de morte,
Porque confronto a paz, a segurança e todas as leis estabelecidas, a fim de restabelecê-las,
Sou mais decidido porque todos me negaram, mais do que em algum momento poderia ter sido se me tivessem acolhido,
Eu não presto, e jamais prestei, atenção à experiência, a precauções, a maiorias ou a parecer ridículo,
E a ameaça a que se chama inferno é pouco ou nada para mim,
E o engodo a que se chama céu é pouco ou nada para mim;
Bem-amado companheiro! Eu confesso, eu o tenho instigado a seguir comigo, e ainda o instigo, sem ter a menor ideia de qual será o nosso destino,
Se sairemos vitoriosos ou plenamente dominados e derrotados.



As I lay with my head in your lap, camerado,
The confession I made I resume, what I said to you and the open air I resume,
I know I am restless and make others so,
I know my words are weapons full of danger, full of death,
For I confront peace, security, and all the settled laws, to unsettle them,
I am more resolute because all have denied me than I could ever have been had all accepted me,
I heed not and have never heeded either experience, cautions,
majorities, nor ridicule,
And the threat of what is call'd hell is little or nothing to me,
And the lure of what is call'd heaven is little or nothing to me;
Dear camerado! I confess I have urged you onward with me, and still urge you, without the least idea what is our destination,
Or whether we shall be victorious, or utterly quell'd and defeated.


WHITMAN, Walt. The complete poems. Harmondsworth: Penguin, 1977, p. 346.

*tradução minha


10.5.16

você e eu / du und ich



Você e eu

eu digo
você e eu
somos nosso mundo

ele é um eu
como eu e você

floresce como nós
morrerá como nós

e dará lugar
a outros mundos


Du und ich

Ich sage
du und ich
sind unsre Welt

Sie ist ein Ich
wie ich und du

blüht wie wir
wird sterben wie wir

und Platz machen
andern Welten


AUSLÄNDER, Rose. "Du und ich". In:_____. Im Atemhaus wohnen. Frankfurt: Fischer Taschenbuch, 1995.

*tradução minha


6.5.16

alexandrino



A tua mão sobre meus olhos, acordei,
A luz que vi era dia entre os dedos teus.
Cerradas pálpebras cobriam os camafeus
Que, cor-de-mel, fazem de mim fora-da-lei.

Toquei-te a palma com os lábios e gozei
Sonial carícia sobre a pele, Grego Deus!
Os laços grenhos pelos nossos himeneus,
Cada voluta memorando um de nós rei.

E tanto verso naquele enlevo de truz,
Beijei nos olhos, testa, lábios, em cruz,
Quantas falanges, hoste alegre, pude ver.

Mas nada mais marcou aquele alvorecer,
Que teu suspiro, olhar lançando que seduz.
Então que eu vi: minha vida é tua, oh Luz.


ATHAYDE, Públio. Sonetos para ser entendido. Belo Horizonte: Keimelion, 2009.

11.1.16

uma arte / one art



A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last,
or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


BISHOP, Elizabeth. Poemas escolhidos / Elizabeth Bishop. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Seleção, tradução e textos de Paulo Henriques Britto.


8.1.16

orelhas (4)



Eu te digo que é preciso não morrer no poema;
que é preciso amar e não parar o pulso de amar
no poema; que é preciso não perder no poema
o amigo; que é preciso não temer dormir só
e nu sob os relâmpagos que estendem
seus galhos sobre o papel em que; é preciso
não mentir, e saber dizer nunca mais, porque
às vezes é preciso; deixar que o inimigo
descanse em paz aqui enquanto queimamos
a noite à procura de pão justiça e edifícios
impossíveis lábios que parecem guardar
a água exata do nosso nome ali onde;
eu te digo que é preciso aceitar o verso ruim
dar a outra face ao silêncio do poema no poema
e ver partir sem pena os verbos que sagrados
só se digam sob o teto de jamais os pronunciarmos;
é preciso deixar que no poema venha quebrar
a maré rasa das palavras ultrajadas repetidas
repisadas nos jornais nos livros nos mercados
apanhadas com o coração na boca e o engano
dos sentidos e do espírito entre os dentes; palavras
tantas vezes obras que pobres não valem a tinta
de novamente serem ditas; dizê-las, no poema;
eu te digo que é preciso perdoá-las.


FERRAZ, Eucanaã. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


22.12.15

the garden of proserpine (excerto)



From too much love of living,
From hope and fear set free,
We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever;
That dead men rise up never;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

Por demais amar esta vida,
sem nada a esperar ou temer,
eis aqui a graça devida
a seja lá que deus houver
por vida alguma ser eterna;
por morto algum sair da terra;
e até porque o rio que erra
um dia alcança um mar qualquer.


Algernon Charles Swinburne

Tradução minha.

9.12.15

the last interview and other conversations (excerto)



Günter Gaus - Eu gostaria de perguntar se você sente falta do período da Europa pré-Hitler, que nunca mais existirá. Quando você vem para a Europa, o que, em sua opinião, permanece e o que foi irremediavelmente perdido?

Hannah Arendt - A Europa do período pré-Hitler? Eu não sinto falta dela, devo lhe dizer. O que permanece? A língua permanece.

Gaus - E isso é muito importante para você?

Arendt - É muito importante. Eu sempre me recusei, conscientemente, a perder a minha língua materna. Eu sempre mantive uma certa distância do francês, que eu falava muito bem, assim como do inglês, em que eu escrevo hoje em dia.

Gaus - Eu queria lhe perguntar isso. Agora você escreve em inglês?

Arendt - Eu escrevo em inglês, mas nunca perdi o senso de distância. Existe uma diferença tremenda entre a sua língua materna e outra língua qualquer. Eu sempre encarei isso de uma forma extremamente simples: eu sei uma parte considerável da poesia alemã de cor; os poemas, de alguma forma, estão sempre presentes na minha mente. Eu nunca poderei fazer isso outra vez. Eu faço coisas em alemão que eu não permitiria a mim mesma fazer em inglês. Quer dizer, às vezes eu faço em inglês também, porque me tornei audaciosa, mas em geral eu mantive uma certa distância. A língua alemã é o essencial que permaneceu e que eu, conscientemente, preservei.

Gaus - Mesmo nos períodos de amargura?

Arendt - Sempre. Eu pensava comigo mesma, o que se pode fazer? Não foi a língua alemã que enlouqueceu. E, segundo, não existe substituição para a língua materna. As pessoas podem esquecer suas línguas maternas. Isso é verdade - eu já vi ocorrer. Existem pessoas que falam a nova língua melhor do que eu falo. Eu ainda falo com um sotaque muito pesado, e eu muitas vezes falo de forma não idiomática. Eles podem fazer todas essas coisas corretamente. Mas fazem-no numa linguagem onde os clichês se sucedem, porque a produtividade que podemos lograr em nossa própria língua é cerceada quando a esquecemos.

Gaus - Os casos em que a língua materna foi esquecida: você tem a impressão de que foram resultado da repressão?

Arendt - Sim, muito frequentemente. Eu tenho visto isso ocorrer com as pessoas como resultado de choques. Você sabe, o que foi decisivo não foi o ano de 1933, pelo menos não para mim. O que foi decisivo foi o dia em que ficamos sabendo de Auschwitz.


In: ARENDT, Hannah. The last interview and other conversations. Brooklyn, NY: Melville House Publishing, 2013.

Tradução do inglês feita por mim e Sandra Alvarez.

2.10.15

manuel



Fui ter com ele à Feira Popular, donde minutos
depois partimos para Sintra. Lembro-me
de o carro avançar à velocidade do meu sangue.
No Guincho, onde momentos antes
de o sol se pôr parámos, vi o mar
ganhar no espírito dele outra ondulação.
De nós, assim o soube, erguem paisagens
as viagens. Entre a pele e o coração alçam-se as pontes.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.