1.3.17

2.



É compreensível e até agradeço,
pois um ADEUS longo
demais, que porventura dure
mais que um segundo, acaba
arrastando-se pela vida toda,
melhor seria não chegar
sequer à segunda vogal,
mas que você
desaparecesse
com aquela consoante
linguodental, sim aquele d,
já que minha língua
de agora em diante
há-de tocar somente
meus próprios dentes.



DOMENECK, Ricardo. Cigarros na cama. São Paulo: Luna Parque, 2016.

9.1.17

A estrela



Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
      coberto de oceanos e montanhas
      é menos que um grão de poeira
      se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                 quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                querido amigo,
                e esses teus olhos azul-safira
                com que me fitas



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. In: _____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

29.12.16

Nec spe nec metu



29 de dezembro de 2016, meu gato não se importa, mas pela primeira vez tenho um prazo curto e bem estabelecido para compor todas as canções de um disco novo. Nec spe nec metu / sem esperança nem medo: rascunhos no celular, no caderno e na cabeça, intenções melódicas, letras-monstro, versos de um parceiro que chegam por WhatsApp, uma melodia que vai para outro por e-mail, um poema que ganhei na cabeceira, telefonemas, Rhythm Composer, caminhadas pelo bairro, espantos, encontros reais ou virtuais com gente que admiro. A melhor fase sempre é a mais trabalhosa, por vezes angustiante, mas cada ponto final dá uma sensação de prazer sem a qual é mais difícil viver.

20.12.16

Treaty






Ah, they're dancing in the street — it's Jubilee


11.12.16

A morte de Clarice Lispector



Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós


GULLAR, Ferreira. Na vertigem do dia. In: _____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.


6.10.16

Pense em quantos anos foram necessários



Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegar a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


5.7.16

Agora que de novo



O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproxi-
mo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.

Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória adentro.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.


19.5.16

Ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro / As I lay with my head in your lap, camerado



Ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro,
A confissão que fiz eu reafirmo, o que disse a você e o ar livre eu reafirmo,
Sei que sou inquieto e torno inquietos os demais,
Sei que minhas palavras são armas, carregadas de perigo, carregadas de morte,
Porque confronto a paz, a segurança e todas as leis estabelecidas, a fim de restabelecê-las,
Sou mais decidido porque todos me negaram, mais do que em algum momento poderia ter sido se me tivessem acolhido,
Eu não presto, e jamais prestei, atenção à experiência, a precauções, a maiorias ou a parecer ridículo,
E a ameaça a que se chama inferno é pouco ou nada para mim,
E o engodo a que se chama céu é pouco ou nada para mim;
Bem-amado companheiro! Eu confesso, eu o tenho instigado a seguir comigo, e ainda o instigo, sem ter a menor ideia de qual será o nosso destino,
Se sairemos vitoriosos ou plenamente dominados e derrotados.



As I lay with my head in your lap, camerado,
The confession I made I resume, what I said to you and the open air I resume,
I know I am restless and make others so,
I know my words are weapons full of danger, full of death,
For I confront peace, security, and all the settled laws, to unsettle them,
I am more resolute because all have denied me than I could ever have been had all accepted me,
I heed not and have never heeded either experience, cautions,
majorities, nor ridicule,
And the threat of what is call'd hell is little or nothing to me,
And the lure of what is call'd heaven is little or nothing to me;
Dear camerado! I confess I have urged you onward with me, and still urge you, without the least idea what is our destination,
Or whether we shall be victorious, or utterly quell'd and defeated.


WHITMAN, Walt. The complete poems. Harmondsworth: Penguin, 1977, p. 346.

*tradução minha


10.5.16

Você e eu / Du und ich



Você e eu

eu digo
você e eu
somos nosso mundo

ele é um eu
como eu e você

floresce como nós
morrerá como nós

e dará lugar
a outros mundos


Du und ich

Ich sage
du und ich
sind unsre Welt

Sie ist ein Ich
wie ich und du

blüht wie wir
wird sterben wie wir

und Platz machen
andern Welten


AUSLÄNDER, Rose. "Du und ich". In:_____. Im Atemhaus wohnen. Frankfurt: Fischer Taschenbuch, 1995.

*tradução minha

6.5.16

Alexandrino



A tua mão sobre meus olhos, acordei,
A luz que vi era dia entre os dedos teus.
Cerradas pálpebras cobriam os camafeus
Que, cor-de-mel, fazem de mim fora-da-lei.

Toquei-te a palma com os lábios e gozei
Sonial carícia sobre a pele, Grego Deus!
Os laços grenhos pelos nossos himeneus,
Cada voluta memorando um de nós rei.

E tanto verso naquele enlevo de truz,
Beijei nos olhos, testa, lábios, em cruz,
Quantas falanges, hoste alegre, pude ver.

Mas nada mais marcou aquele alvorecer,
Que teu suspiro, olhar lançando que seduz.
Então que eu vi: minha vida é tua, oh Luz.


ATHAYDE, Públio. Sonetos para ser entendido. Belo Horizonte: Keimelion, 2009.