6.3.12

hoje



Faz
tempo, hoje

defronte
desse apartamento
da Strozzigasse,
ontem, ante-
outono, neves,

eles
ainda se beijando
atrás de corações
embaciados
na janela.

Eles, nós.


CARVALHO, Age de. Trans. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

5.3.12

impreciso (III)





foi bonito aquele dia em que a gente se
encontrou, e se abraçou, e dormimos sem nos
largar; pra recuperar a distância, pra recuperar o
que de nós havíamos perdido.



SALOMÃO, Omar. Impreciso. Rio de Janeiro: Dantes, 2011.


2.3.12

recusa [2]



Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.

______Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.


TSVETÁIEVA, Marina. Abro as veias. In: CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

29.2.12

recusa [1]



Não gosto de prazer premeditado.
O mundo, às vezes, é um borrão escuro.
Eu, meio bêbado, estou condenado
A ver as cores de um viver obscuro.

O vento brinca e às nuvens descabela.
A âncora cai no fundo do oceano.
E inanimada, como numa tela,
A alma pende sobre o abismo insano.

Mas amo estar nas dunas do cassino,
A larga vista da janela baça,
Um fio de luz na toalha que desbota,

À minha volta o mar verde-citrino,
Vinho, como uma rosa, em minha taça
E eu a seguir o vôo da gaivota.


MANDELSTAM, Óssip. Cassino. In: CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

27.2.12

Campos meets Cage



trecho da ótima entrevista de Augusto de Campos a J. Jota de Moraes, publicada originalmente no Jornal da Tarde, em 05 de outubro de 1985, sobre a edição brasileira de "A Year from Monday", de John Cage.


J. Jota de Moraes - Sabe-se que, mais tarde, você chegaria a entrar em contato direto com (John) Cage, em Nova York. Poderia nos contar como foi esse encontro?

Augusto de Campos - O contato com Cage começou, via epistolar, em 1973, quando terminei a primeira revisão da versão de Rogério (Duprat) e buscava a autorização para a edição brasileira. O poeta e músico Dick Higgins, que eu conhecera em 1968, forneceu-me o endereço. Higgins dirigia a editora de vanguarda Something Else Press, que publicou, em belíssimas impressões, livros de Gertrude Stein, Merce Cunninghan e Cage (Notations e uma seção do "Diário" em várias gamas de cor), assim como a Anthology of Concrete Poetry, com ampla representação dos concretos brasileiros. Mandei a Cage também alguns livros, como a Antologia Noigandres, Poetamenos e, mais tarde, Caixa Preta e Poemóbiles. Trocamos algumas cartas. Depois, em 1977, ele enviou para uma exposição do MAC um de seus trabalhos visuais, feito com o auxílio do artista gráfico Calvin Sumsion - Not Wanting to Say Anything About Marcel Duchamp (Não Querendo Dizer Nada Sobre Marcel Duchamp) -, oito folhas de plexiglás com letras serigrafadas formando uma espécie de aquário pré-holográfico. E, numa carta ao diretor do museu, pediu que, terminada a exposição, o seu poema-objeto me fosse entregue. Quando fui para a Europa em fins de 77 pensei em voltar por Nova York. Haroldo já estava em Yale. Escrevi ao Cage para tentar um possível encontro e ele, generosamente, se dispôs a nos receber, entre viagens, nos primeiros dias de março de 78 - "I would be glad to make dinner for you and your brother and wife (or wifes?)". Numa noite de inverno, no dia 3, lá estivemos, todos, mais Regina Vater e Alfredo Portillos. Um memorabilíssimo jantar, feito pelo próprio Cage, muita bebida, muito papo. Ele fez questão de fazer até o café, num coador de pano, à velha maneira brasileira, utilizando para ferver a água uma chaleira que apitava e para cuja música-de-ruídos chamou a nossa atenção. Um homem de grande sabedoria, humor e modéstia, que não falava sobre sua obra a não ser quando frontalmente perguntado e sempre com um pouco de blague. Sabendo que ele tinha composto músicas sobre textos de Cummings, e que este também morara em Greenwich Village, indaguei se tinha conhecido o poeta. Ele disse que sim, e que havia mostrado suas composições a Cummings, mas que este não se interessara muito por elas e que, na verdade, só conseguira fazer um pouco de amizade com Marion, mulher do poeta. Nenhuma pretensão. Ao sairmos, na noite fria, à procura de um táxi, tropeçando na neve, ele caminhava lépido à nossa frente, com um gorro engraçado, que tinha algo de cogumelo. "HAPPY NEW EARS!"- ele parecia estar dizendo todo o tempo, rindo, ridente. Falamos sobre Duchamp, Boulez, Gertrude Stein, Pound, poesia e música e muitas outras coisas. Lamentavelmente, não tomei nota de tudo o que conversamos naquela noite da mágica, da qual saímos meio alígeros, e de alegria e de álcool, todos "um pouco acima do chão".

CAMPOS, Augusto de. Música de Invenção. São Paulo: Perspectiva, 2007.


25.2.12

03h05


letra minha, música de Vital Lima, meu amigo querido e parceiro inspirado. participação de Alba Maria, em trecho de "Le chat", de Charles Baudelaire.





meu pensamento
supõe
teu silêncio

o teu itinerário
o teu fogo cruzado
o teu quarto escuro
o teu ponto fraco

meu pensamento
supõe
teu tempo exato
no olhar do gato
(que tem a hora de quem espera
por quem nunca vai voltar)

enquanto não durmo...


*faixa do CD "Mundano" (2009).