19.2.18

A montanha mágica - p. 76



— Rá, rá, rá! Acho-o bem sarcástico, sr. Settembrini.
— Sarcástico? O senhor quer dizer: maledicente. Sim, sou um pouco maledicente. — disse Settembrini. — Lamento apenas que me tenham condenado a desperdiçar minha maledicência com assuntos tão miseráveis. Espero que o senhor não se oponha à maledicência, meu caro engenheiro. A meu ver, é a mais esplêndida arma da razão na luta contra as potências das trevas e da fealdade. A maledicência, senhor, é o espírito da crítica, e a crítica representa a origem do progresso e do esclarecimento. — E de súbito pôs-se a discorrer sobre Petrarca, a quem chamou de "pai dos tempos modernos".


MANN, Thomas. A montanha mágica. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. Tradução Herbert Caro.


19.1.18

"abro o envelope"



ABRO O ENVELOPE
e espero praias grandes paisagens
sua letra miúda contando coqueiros
a data à caneta
marcando meses anos
que não nos vemos. mas o envelope
branco e frágil
traz estrela cadente na borda
anéis de saturno onde você talvez esteja
um homem-palito astronauta
boiando num céu estrelado. você talvez
tenha desenhado numa noite de lua
nunca vou saber
onde foi que gravou
esse sofá amarelo, essa porta de geladeira
numa cozinha de pedra são tomé
uma cadeira sobre fundo
de azulejos verdes. me pergunto
se diante de tantas paisagens
por que você só mostra
os cantos das casas por onde passou
nenhuma janela aberta
nenhuma amostra
se faz sol ou chuva
se aí também amanhece


SANT'ANNA, Alice. Rabo de baleia. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

17.1.18

fazer pensar



Não cabe ao autor, mas ao outro fornecer os seus sentimentos. A finalidade de uma obra – honesta – é simples e clara: fazer pensar. Fazer pensar, a contragosto, o leitor. Provocar atos internos.

VALÉRY, Paul. Cahiers. In: CAMPOS, Augusto de. Paul Valéry: a serpente e o pensar. São Paulo: Ficções Editora, 2011.



6.1.18

um dia desses eu me caso com você



de tanto me perder, de andar sem sono
por essa noite sem nenhum destino
por essa noite escura em que abandono
uns sonhos do meu tempo de menino
de tanto não poder mais ter saudade
de tudo o que já tive e já perdi
dona menina, eu me resolvo agora
a ir-me embora pra longe daqui.

um dia desses eu me caso com você
você vai ver, ai ai, você vai ver
um dia desses, de manhã, com padre e pompa
você vai ver como eu me caso com você

meu tempo de brincar já foi-se embora
e agora, o que é que eu vou fazer?
não tenho onde morar, vou caminhando
sem sono, sem mistérios, sem você;
pra terra onde nasci
ai ai
não volto nunca mais
e esta cidade alheia tem segredos
que eu faço tudo pra não compreender

meu pobre coração não vale nada
anda perdido, não tem solução
mas se você quiser ser minha namorada
vamos tentar, não é?
não custa nada
até pode dar certo
ai ai
e se não der
eu pego um avião, vou pra xangai
e nunca mais eu volto pra te ver.


NETO, Torquato. In: KRUEL, Kernard. Torquato Neto ou a carne seca é servida. Teresina: Zodíaco, Fundação Cultural do Piauí, 2008.


20.12.17

como eu quero morrer



Sob a reza dos sinos, num crepúsculo
os meus olhos nos teus,
sem o fremir dorido de um só músculo,
coroado de rosas como um Deus.

Belém, 17.1.930


TAVERNARD, Antonio. Obras reunidas de Antonio Tavernard. Vol. I Poesia. Belém, Pará: Conselho Estadual de Cultura, 1986.

5.10.17

queria ser marinheiro correr mundo



queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

debruçou-se para o outro lado do espelho
onde o corpo se torna aéreo até aos ossos
a noite devolveu-lhe outro corpo vogando
ao abandono dum secreto regresso... depois
guardou a paixão de longínquos dias no saco de lona
e do fundo nostálgico do espelho
surgiram os súbitos olhos do mar

cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais

um fio de sémen atava o coração devassado pela salsugem
o corpo separava-se da milenar sombra
imobilizava-se no sono antigo da terra
descia ao esquecimento de tudo... navegava
no rumor das águas oxidadas agarrava-se à raiz das espadas
ia de mastro em mastro perscrutando a insónia
abrindo ácidos lumes pelo rosto incerto dalgum mar


In: AL BERTO. Vigílias. Seleção e prólogo de José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.


11.8.17

novo imortal



Antonio Cicero foi eleito imortal pela Academia Brasileira de Letras. apesar de ter ficado famoso primeiro por escrever letras de canções, seu interesse principal é a poesia escrita e, em seguida, a filosofia, atividades às quais ele se dedica há mais de 40 anos - dividindo o tempo com música, aulas e conferências pelo Brasil - com beleza e rigor admiráveis. porque tenho clareza disso, apesar de nossa grande amizade, nossa parceria sempre foi, num certo sentido, bem mais poética que musical. fizemos apenas uma canção em que a letra veio depois da música. no geral, ele liga para ler algo que acabou de escrever ou um poema misteriosamente insinua-se à música no momento em que leio. tem uma coisa que a Adriana Calcanhotto disse certa vez, e que eu adoro: ela pensa duas vezes antes de ligar para o Cicero, com receio de atrapalhar o processo de um poema. sim, nosso poeta, que sempre preferiu o trabalho aos holofotes, sabe que a atividade poética, até que se revele o que vale por si, o que merece existir como um monumento da língua, demanda muito tempo, empenho - por mais que às vezes a transpiração passe invisível por olhos distraídos! - e que sejam utilizados todos os recursos, toda a bagagem de que dispõe. pois bem, é por isso que o melhor troféu, além do reconhecimento absolutamente merecido e de representar, com seus projetos, a modernidade que a ABL precisa nesse momento, é saber que Cicero não mais precisará dividir seu tempo se não quiser. agora, para sempre, a poesia e a filosofia nos recompensarão com o esforço integral que ele poderá, enfim, dedicar a elas. como bem sintetizou o jornalista Leonardo Lichote no Facebook, há pouco:

"Cicero, que é muito maior que a ABL, agora torna a ABL maior."

letrux*



Letrux é o novo não só porque tem o que dizer, mas porque o diz de maneira inédita, mesmo quando trata de sentimentos que todos conhecemos muito bem, realizando a proeza de soar absolutamente singular, desconcertante, sedutora na alegria ou na tristeza, na verdade ou na ironia, na densidade ou na leveza

desde a primeira audição fui seduzido pelo mistério desse disco e ontem, em São Paulo, a estreia do show revelou uma multidão igualmente seduzida, cantando junto, chorando, rindo, amando, flutuando no salão do não óbvio, da diferença

por mais que tenha acabado de chegar, por esse acontecimento que a gente não sabe explicar, de quando a música se impõe e é capaz de atingir tanta gente como uma flecha, esse disco já é um clássico do pop brasileiro à altura dos nossos ídolos e, ainda bem, dissonante de todos eles

Letrux não é isso ou aquilo, é um agora como jamais ouvimos, é o auge da expressão da Letícia Novaes em seu presente bonito, pessoal e intransferível

*depois do "caldo", depois do show




5.8.17

the neverending craft


primeiro dia quieto em casa depois de ter enviado o disco novo à fábrica e encerrado uma fase criativa que me consumiu pelos últimos seis meses, eis que surge uma canção nova assim em pleno sofá da sala

20.7.17

No bolso as moedas



perder o amor
não é perder o lápis
o relógio
de preguiça perder o poema
ou o comboio o elétrico 15E
sentido algés
por 6 minutos
a mais na cama
nas contas a serem
pagas nas culpas
nunca suturadas
perder o calor
do café
o amor perdê-lo não é
como precisar ir
mas ficar
andar e não correr
atrás disso
que fácil e lento passa
em frente à porta (ouvir
Dylan para entender
o uso deste sample)
perdê-lo o amor não é
como ir à praia sem querer
ir embora
e descobrir depois:
o melhor era ficar
perdê-lo o amor
é impossível
no bolso as moedas
se escondem
(mas não
desaparecem)
como o amor


Ederval Fernandes, inédito em livro