27.10.16

lançamento do disco "presente (antonio cicero 70)" em sp





Serviço

Arthur Nogueira e Antonio Cicero | Projeto Plataforma
Dia 06 de novembro, domingo - 19h00
SESC Pompeia – Rua Clélia, 93 (São Paulo)
Ingressos aqui.


14.10.16

um amor feliz



Um amor feliz. Isso é normal,
isso é sério, isso é útil?
O que o mundo ganha com dois seres
que não veem o mundo?

Enaltecidos um para o outro sem nenhum mérito,
os primeiros quaisquer de milhões, mas convencidos
que assim devia ser - como prêmio de quê? De nada;
a luz cai de lugar nenhum -
por que justo nesses e não noutros?
Isso ofende a justiça? Sim.
Isso infringe os princípios cuidadosamente acumulados?
Derruba do cume a moral? Infringe e derruba, sim.

Observem estes felizardos:
se ao menos disfarçassem um pouco,
fingissem depressão, confortando assim os amigos!
Escutem como riem - é um insulto.
Em que língua falam - só entendi na aparência.
E esses seus rituais, cerimônias,
elaborados deveres recíprocos -
parece um complô contra a humanidade!

É difícil até imaginar onde se iria parar,
se seu exemplo fosse imitado.
Com que poderiam contar a religião, a poesia,
o que seria lembrado, o que, abandonado,
quem quereria ficar dentro do círculo?

Um amor feliz. Isso é necessário?
O tato e a razão nos mandam silenciar sobre ele
como sobre um escândalo das altas esferas da Vida.
Crianças perfeitas nascem sem sua ajuda.
Nunca conseguiria povoar a terra,
pois raramente acontece.

Os que não conhecem o amor feliz que afirmem
não existir em lugar nenhum um amor feliz.

Com essa crença lhes será mais leve viver e morrer.


SZYMBORKA, Wisława. Um amor feliz. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.


6.10.16

pense em quantos anos foram necessários



Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegar a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


5.7.16

agora que de novo



O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproxi-
mo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.

Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória adentro.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.


19.5.16

ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro / as i lay with my head in your lap, camerado



Ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro,
A confissão que fiz eu reafirmo, o que disse a você e o ar livre eu reafirmo,
Sei que sou inquieto e torno inquietos os demais,
Sei que minhas palavras são armas, carregadas de perigo, carregadas de morte,
Porque confronto a paz, a segurança e todas as leis estabelecidas, a fim de restabelecê-las,
Sou mais decidido porque todos me negaram, mais do que em algum momento poderia ter sido se me tivessem acolhido,
Eu não presto, e jamais prestei, atenção à experiência, a precauções, a maiorias ou a parecer ridículo,
E a ameaça a que se chama inferno é pouco ou nada para mim,
E o engodo a que se chama céu é pouco ou nada para mim;
Bem-amado companheiro! Eu confesso, eu o tenho instigado a seguir comigo, e ainda o instigo, sem ter a menor ideia de qual será o nosso destino,
Se sairemos vitoriosos ou plenamente dominados e derrotados.



As I lay with my head in your lap, camerado,
The confession I made I resume, what I said to you and the open air I resume,
I know I am restless and make others so,
I know my words are weapons full of danger, full of death,
For I confront peace, security, and all the settled laws, to unsettle them,
I am more resolute because all have denied me than I could ever have been had all accepted me,
I heed not and have never heeded either experience, cautions,
majorities, nor ridicule,
And the threat of what is call'd hell is little or nothing to me,
And the lure of what is call'd heaven is little or nothing to me;
Dear camerado! I confess I have urged you onward with me, and still urge you, without the least idea what is our destination,
Or whether we shall be victorious, or utterly quell'd and defeated.


WHITMAN, Walt. The complete poems. Harmondsworth: Penguin, 1977, p. 346.

*tradução minha


10.5.16

você e eu / du und ich



Você e eu

eu digo
você e eu
somos nosso mundo

ele é um eu
como eu e você

floresce como nós
morrerá como nós

e dará lugar
a outros mundos


Du und ich

Ich sage
du und ich
sind unsre Welt

Sie ist ein Ich
wie ich und du

blüht wie wir
wird sterben wie wir

und Platz machen
andern Welten


AUSLÄNDER, Rose. "Du und ich". In:_____. Im Atemhaus wohnen. Frankfurt: Fischer Taschenbuch, 1995.

*tradução minha


6.5.16

alexandrino



A tua mão sobre meus olhos, acordei,
A luz que vi era dia entre os dedos teus.
Cerradas pálpebras cobriam os camafeus
Que, cor-de-mel, fazem de mim fora-da-lei.

Toquei-te a palma com os lábios e gozei
Sonial carícia sobre a pele, Grego Deus!
Os laços grenhos pelos nossos himeneus,
Cada voluta memorando um de nós rei.

E tanto verso naquele enlevo de truz,
Beijei nos olhos, testa, lábios, em cruz,
Quantas falanges, hoste alegre, pude ver.

Mas nada mais marcou aquele alvorecer,
Que teu suspiro, olhar lançando que seduz.
Então que eu vi: minha vida é tua, oh Luz.


ATHAYDE, Públio. Sonetos para ser entendido. Belo Horizonte: Keimelion, 2009.

11.1.16

uma arte / one art



A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last,
or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


BISHOP, Elizabeth. Poemas escolhidos / Elizabeth Bishop. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Seleção, tradução e textos de Paulo Henriques Britto.


8.1.16

orelhas (4)



Eu te digo que é preciso não morrer no poema;
que é preciso amar e não parar o pulso de amar
no poema; que é preciso não perder no poema
o amigo; que é preciso não temer dormir só
e nu sob os relâmpagos que estendem
seus galhos sobre o papel em que; é preciso
não mentir, e saber dizer nunca mais, porque
às vezes é preciso; deixar que o inimigo
descanse em paz aqui enquanto queimamos
a noite à procura de pão justiça e edifícios
impossíveis lábios que parecem guardar
a água exata do nosso nome ali onde;
eu te digo que é preciso aceitar o verso ruim
dar a outra face ao silêncio do poema no poema
e ver partir sem pena os verbos que sagrados
só se digam sob o teto de jamais os pronunciarmos;
é preciso deixar que no poema venha quebrar
a maré rasa das palavras ultrajadas repetidas
repisadas nos jornais nos livros nos mercados
apanhadas com o coração na boca e o engano
dos sentidos e do espírito entre os dentes; palavras
tantas vezes obras que pobres não valem a tinta
de novamente serem ditas; dizê-las, no poema;
eu te digo que é preciso perdoá-las.


FERRAZ, Eucanaã. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


22.12.15

the garden of proserpine (excerto)



From too much love of living,
From hope and fear set free,
We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever;
That dead men rise up never;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

Por demais amar esta vida,
sem nada a esperar ou temer,
eis aqui a graça devida
a seja lá que deus houver
por vida alguma ser eterna;
por morto algum sair da terra;
e até porque o rio que erra
um dia alcança um mar qualquer.


Algernon Charles Swinburne

Tradução minha.