10.7.19

as rosas com bolores



Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre da minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me


In LOPES, Adília. Antologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

10.6.19

Emílio ou Da educação



Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto.


SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

4.6.19

Lira e eu no programa Escala Musical, da TV Cultura






cisne



Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
— a presença do cisne?

Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e — humana —
é esplendor memória
e sangue.

E
resta
não o cisne: a
palavra
— a palavra mesmo
cisne.


In FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.

26.5.19

alba



I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
na carne.

II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
— e a primeira vez
é sempre.

III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.

IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!


In FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.

19.5.19

"se em meu ofício, ou arte severa" / "in my craft or sullen art"



Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando ―
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.

Não pelo homem altivo, alheio
A tormentosa lua escrevo
Sobre estas páginas de espuma
Nem pelos monstros imponentes
Com seus rouxinóis, seus salmos,
Mas pelos que se amando estreitam
Nos braços toda a dor das eras,
Que não louvam, não pagam, nem escutam
O meu ofício ― ou arte severa.


x


In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.


Poema de Dylan Thomas em versão de Mário Faustino. In: FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. São Paulo: Max Limonad, 1985.


18.12.18

felicidade



Felicidade é esse acaso
Que te fez o que és.
Nada queres dizer.
Nada deves a trabalho
Ou a dever.
Perverso
Brincas.
Criatura de um só dia
Absoluto
És festa
Serás luto.
És festa sonho carne frêmito.
Não mereces este prazer
Nem eu mereço teu amor:
Tudo entre nós é gratuito
E muito
E parte.
Cardumes de sol ao mar
Quase sem arte
Quero-te feliz.


CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.


16.12.18

happiness / felicidade



Happiness

So early it’s still almost dark out.
I’m near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They have on caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren’t saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other’s arm.
It’s early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs palely over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn’t enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


Felicidade

Tão cedo ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e as coisas que de manhãzinha
passam pela cabeça.
Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.
Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles tem uma mochila nos ombros.
Estão tão felizes
e não dizem nada, esses garotos.
Acho que se pudessem eles se dariam
os braços.
É cedo pela manhã,
e eles estão nessa juntos.
E avançam, lentamente.
O céu começa a clarear,
embora ainda sobre a água paire a lua pálida.
Tanta beleza que, por um instante,
morte e ambição, e até amor,
não cabem aqui.
Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, realmente,
de qualquer conversa sobre ela de manhã cedinho.


de Raymond Carver,
versão minha


14.12.18

Dar nome pra um gato / The Naming of Cats



Dar nome pra um gato ㅤ

Dar nome pra um gato não é brincadeira,
Não é dessas coisas normais de vocês;
Pode até parecer exagero, ou doideira,
Mas é pouco um só nome, ELES TÊM QUE TER TRÊS.
O primeiro é aquele de usar todo dia,
Bernardo, Ana Clara, Gabi ou Inês,
Madalena, Olga ou Sara, Eduardo e até Bia.
São nomes sisudos, são só sensatez.
Se você preferir, pode até ser mais chique,
Pra menino ou menina, os dois têm sua vez:
Dante, Ágata, ou Íris, Urraca ou Manrique —
Mas nomes sisudos, e só sensatez.
Só que os gatos precisam de um nome sem par
Um nome mais raro, mais conceituado,
Ou não sobe seu rabo, perpendicular,
Fica mole o bigode, e o orgulho, acabado!
De nomes assim eu te mostro uma renca,
Mungustão, Quaximol, Filiréu ou Jorlato,
Seja Bombalurina, ou talvez Chelimenca —
São nomes que sempre serão de um só gato.
Mas acima de tudo outro nome sobrou,
Um nome afundado em mistérios à beça,
O nome que o homem jamais desvendou —
MAS É O GATO QUE SABE, e ele nunca confessa.
Quando um gato se perde na meditação,
 O motivo, eu te digo, não muda e não some:
Sua mente está presa na contemplação
 Da ideia, da ideia, da ideia do nome:
Do inefável efável
Seu efinevável
Profundo, insondável e excêntrico Nome. ㅤ


The Naming of Cats

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey-
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter --
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum -
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover --
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.


ELIOT, T. S. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Organização, tradução e posfácio de Caetano W. Galindo.