14.5.17

my tom



para encontrar a grande beleza





8.4.17

entrevista



revirando os arquivos, encontrei a íntegra da entrevista que o jornalista Bruno Albertim fez comigo para matéria no Jornal do Commercio, de Pernambuco, quando lancei o disco "Presente (Antonio Cicero 70)":

BA: Qual o teu primeiro encontro marcante com a poética de Antonio Cicero?

AN: A primeira pessoa que me falou sobre Antonio Cicero foi um xará dele, amigo do meu pai, tão importante que chamo de "tio", chamado Antônio Maria. Foi a pessoa que me deu de presente um violão, quando eu tinha 13 anos, e com quem costumava encontrar para cantar, tocar e ouvir música. Em uma tarde na casa dele em Mosqueiro, uma ilha perto de Belém, o Antônio botou um LP da Marina, "Certos Acordes", e disse "ouve que beleza, as letras são do irmão dela, poeta e filósofo". Mas o impacto mesmo veio com o disco "A Fábrica do Poema", da Adriana Calcanhotto, quando ouvi "Inverno", que agora regravei.

BA: Parece que, com Cicero e Waly, a poesia, que já tinha cadeira cativa na MPB mais "classicona", encontrou abrigo brasileiro no pop. Como você situaria a importância de Antonio Cicero nesse panorama?

AN: Certa vez, o Miguel Conde apresentou o Cicero na Flip como talvez o único caso no mundo de um filósofo que toca no rádio diariamente. Essa vocação para ser "herdeiro das superfícies e das profundezas" me fascina e é muito marcante. Cicero é um poeta apaixonado na mesma medida em que é um pensador profundo e rigoroso. Ele se aproximou da música em Londres, no início dos anos 1970. Estava lá estudando filosofia no University College London quando conheceu Caetano. Cicero diz que foi Caetano quem mostrou a ele a cultura pop, abrindo sua cabeça à compreensão de que a qualidade estética de uma obra de arte não tem a ver com a origem erudita, popular ou pop. E Caetano já afirmou que Cicero foi quem organizou seu pensamento na volta do exílio para o Brasil. O livro "O Mundo Desde o Fim", como diz Caetano, é realmente "um dos maiores acontecimentos intelectuais do final do milênio no Brasil".

BA: Como foi a escolha do repertório de "Presente (Antonio Cicero 70)"?

AN: Foi uma escolha pessoal. Minha intenção não era traçar um recorte definitivo da obra musical do Cicero, mas celebrar nossa amizade, nossa pequena obra, nosso presente juntos, revelando as coisas que nos aproximam, como o gosto pela poesia clássica. A Joia Moderna já tinha feito um disco em homenagem à Marina, então a proposta do Zé Pedro foi, sendo eu um novo parceiro, iluminar momentos felizes do repertório do Cicero com outros artistas. Depois da Marina, Adriana é a parceira com quem Cicero tem uma relação mais profunda. É por isso que no disco tem três canções deles e outras duas que a Adriana gravou.

BA: E como fez, ou melhor, onde buscou fôlego para recriar canções que, de tão clássicas em nossa memória pop e afetiva, já pareciam ter encontrado versões definitivas?

AN: São canções importantes na minha história com a música, então o fôlego sempre existiu ao redor desse repertório, mesmo quando nem imaginava gravá-lo. Musicalmente, quem está por trás do disco é o Arthur Kunz, que fez a produção musical. Ele também produziu o "Sem Medo Nem Esperança" e outros outros trabalhos meus. É um produtor que conhece bem a minha música e que, por isso, contribuiu muito para que eu me encontrasse nessas canções.

BA: Como surgiu o álbum e como foi ter recebido esse respaldo tão grande?

R: Na verdade, foi o Zé Pedro quem "inventou" esse disco. Depois que saiu o "Sem Medo Nem Esperança", ele me ligou e disse "vamos fazer outro?" No começo, a ideia era fazer surpresa e só contar para o Cicero quando o disco tivesse pronto. Só que depois pareceu interessante envolvê-lo, até para que ele pudesse sinalizar alguma música de que gostasse muito, por exemplo. Foi o caso de "Bagatelas", parceria com Frejat. Essa música entrou por sugestão do Cicero.

BA: Você tem uma letra gravada por Gal, é interlocutor de Cida Moreira e, ao mesmo tempo, tem uma convivência produtiva com gente da tua geração, como Alice, Ava e Lira. Você, estética ou poeticamente, se sente parte de um movimento ou uma cena específica?

AN: Não. Aliás, Cicero sempre diz que os outros é que estão interessados em rotular o que a gente faz, nós mesmos só queremos fazer. É verdade. Eu só me aproximo de quem admiro, a regra é essa. Construo a minha carreira de modo fiel ao que bate em meu peito.

BA: Por que chamou a Ava Rocha para dirigir teu clipe?

AN: Sempre quis ter um clipe dirigido pela Ava. Fazer um vídeo de "O Último Romântico" era um desafio, por ser uma canção que habita a memória afetiva de muita gente. Só uma artista poderosa como ela poderia ressignificar um sucesso desse tamanho. Quando ela me disse o que estava imaginando, topei na hora, porque percebi que, pela primeira vez, essa música seria vista sob a ótica do letrista.

BA: Por que a música do Lirinha te toca tanto?

AN: Porque o Lira é singular, um artista por inteiro. Ninguém escreve, canta, se movimenta como ele. Assisti a um show no Sesc Vila Mariana que mexeu muito comigo. Virei fã e tive a honra de tê-lo como meu convidado no show de lançamento do disco "Sem Medo Nem Esperança" no Sesc Belenzinho. Para falar dele, gosto de citar o Guimarães Rosa: Lira vai "gastando o diabo de dentro da gente".

BA: Como surgiu "Onda", essa tua nova parceria com Cicero? E por que, afinal, nesses tempos de retrocessos e afirmações, uma ode ao amor gay?

AN: Na verdade, "Onda" é uma canção antiga que só gravei agora. Uma das primeiras melodias que eu fiz na vida. Musiquei esse soneto do livro "Guardar", pouco tempo depois que conheci o Cicero, em 2005. Como rola com a maioria dos poemas, não o escolhi, ele se insinuou à música no momento em que li. Amor é amor de qualquer maneira. Quem é contra o amor de uma relação gay é contra o amor de um modo geral e está, inevitavelmente, preferindo o ódio. É fundamental dedicar odes diárias ao amor.

BA: O jornalismo te perdeu definitivamente para a música?

AN: Não, e penso que jamais me perderá. Com o tempo, percebi que é muito bom ter outra profissão. O jornalismo oferece a segurança que eu preciso para a minha música. Quero compor e cantar da forma como entendo que deve ser: sem pressa, sem medo nem esperança.


ouça


1.3.17

2.



É compreensível e até agradeço,
pois um ADEUS longo
demais, que porventura dure
mais que um segundo, acaba
arrastando-se pela vida toda,
melhor seria não chegar
sequer à segunda vogal,
mas que você
desaparecesse
com aquela consoante
linguodental, sim aquele d,
já que minha língua
de agora em diante
há-de tocar somente
meus próprios dentes.



DOMENECK, Ricardo. Cigarros na cama. São Paulo: Luna Parque, 2016.

9.1.17

A estrela



Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
      coberto de oceanos e montanhas
      é menos que um grão de poeira
      se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                 quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                querido amigo,
                e esses teus olhos azul-safira
                com que me fitas



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. In: _____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

29.12.16

Nec spe nec metu



29 de dezembro de 2016, meu gato não se importa, mas pela primeira vez tenho um prazo curto e bem estabelecido para compor todas as canções de um disco novo. Nec spe nec metu / sem esperança nem medo: rascunhos no celular, no caderno e na cabeça, intenções melódicas, letras-monstro, versos de um parceiro que chegam por WhatsApp, uma melodia que vai para outro por e-mail, um poema que ganhei na cabeceira, telefonemas, Rhythm Composer, caminhadas pelo bairro, espantos, encontros reais ou virtuais com gente que admiro. A melhor fase sempre é a mais trabalhosa, por vezes angustiante, mas cada ponto final dá uma sensação de prazer sem a qual é mais difícil viver.

20.12.16

Treaty






Ah, they're dancing in the street — it's Jubilee


11.12.16

A morte de Clarice Lispector



Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós


GULLAR, Ferreira. Na vertigem do dia. In: _____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.


6.10.16

Pense em quantos anos foram necessários



Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegar a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


5.7.16

Agora que de novo



O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproxi-
mo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.

Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória adentro.


NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa 1979-1994. Lisboa: Fundação Luis Miguel Nava e Publicações Dom Quixote, 2002.


19.5.16

Ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro / As I lay with my head in your lap, camerado



Ao deitar-me com a cabeça em seu colo, companheiro,
A confissão que fiz eu reafirmo, o que disse a você e o ar livre eu reafirmo,
Sei que sou inquieto e torno inquietos os demais,
Sei que minhas palavras são armas, carregadas de perigo, carregadas de morte,
Porque confronto a paz, a segurança e todas as leis estabelecidas, a fim de restabelecê-las,
Sou mais decidido porque todos me negaram, mais do que em algum momento poderia ter sido se me tivessem acolhido,
Eu não presto, e jamais prestei, atenção à experiência, a precauções, a maiorias ou a parecer ridículo,
E a ameaça a que se chama inferno é pouco ou nada para mim,
E o engodo a que se chama céu é pouco ou nada para mim;
Bem-amado companheiro! Eu confesso, eu o tenho instigado a seguir comigo, e ainda o instigo, sem ter a menor ideia de qual será o nosso destino,
Se sairemos vitoriosos ou plenamente dominados e derrotados.



As I lay with my head in your lap, camerado,
The confession I made I resume, what I said to you and the open air I resume,
I know I am restless and make others so,
I know my words are weapons full of danger, full of death,
For I confront peace, security, and all the settled laws, to unsettle them,
I am more resolute because all have denied me than I could ever have been had all accepted me,
I heed not and have never heeded either experience, cautions,
majorities, nor ridicule,
And the threat of what is call'd hell is little or nothing to me,
And the lure of what is call'd heaven is little or nothing to me;
Dear camerado! I confess I have urged you onward with me, and still urge you, without the least idea what is our destination,
Or whether we shall be victorious, or utterly quell'd and defeated.


WHITMAN, Walt. The complete poems. Harmondsworth: Penguin, 1977, p. 346.

*tradução minha