18.5.18

canção pra você viver mais



das primeiras músicas que toquei no violão. o Pato Fu foi minha banda de adolescência. é maduro e reconfortante pensar que, quando pessoas morrem ou saem de nossas vidas por um motivo igualmente irremediável, permanecem vivas em nossa memória, em canções assim, bonitas, infinitas. meu trabalho é para tentar preservar o amor das coisas gratas. nesse sentido, essa canção do John fala sobre minhas canções também. eis o privilégio do ser artista.

AN






8.5.18

paixão do olhar



não sei dirigir, não sei andar de bicicleta. nunca quis nem pretendo ter um carro. adoraria ter uma bicicleta, mas admito que, por um lado, a covardia da infância persiste, e por outro, infelizmente, é sabido que as cidades brasileiras ainda parecem campos minados contra esse tipo de transporte. o fato é que na maioria das vezes me desloco ou caminhando ou utilizando o transporte público. quando estou em uma cidade que não conheço, para longas distâncias prefiro os transportes de superfície, para não perder nenhum detalhe e compreender melhor a geografia do lugar. ontem e hoje, aproveitando que estou em Belém, flanei por ruas onde nunca mais havia estado dessa forma. as caminhadas tácitas, onde quer que eu esteja, além de um bom exercício, são um ótimo momento para tomar decisões — das práticas às abstratas, como tentar organizar meu pensamento sobre algum assunto ou encontrar soluções para canções não terminadas. nesse sentido, desconfio que não há coisa melhor para o esclarecimento do que exercitar o olhar com os pés no chão.

AN


2.5.18

mão única



— é proibido
voltar atrás
e chorar.


In: FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.

30.4.18

ser artista não acaba



ser artista não acaba. mesmo os que escolhem parar, não acredito que parem mesmo. devem fingir e só parar para fora, não para dentro. mesmo Rimbaud, que como se sabe não escreveu poemas depois dos 20 anos, parece ter escolhido o exílio na África, onde nunca estivera antes, para saciar sua sede do desconhecido, do improvável. desde o início de 2018, eu escolhi me concentrar em outras coisas e passar um tempo assim, para dentro. só que a música é ciumenta e às vezes chega sem convite, obrigando-me a dar uma pausa em qualquer outra atividade por causa dela. aconteceu outra vez nesse fim de semana, e peguei o violão, e saiu uma nova parceria com a Letícia Novaes por acaso, depois um período relativamente longo – nossa primeira rolou em 2013 e foi gravada no meu disco “Sem medo nem esperança”, de 2015. aprendi que uma obra de arte vale por si, apesar de qualquer utilidade ulterior, mas tenho pensado que, mesmo quando ainda estão secretas, inéditas, como essa está agora, as canções servem para que eu me sinta útil. mais útil do que quando desempenho qualquer atividade prática. ser artista não acaba.

AN


27.4.18

A montanha mágica - p. 627



Era capaz de ficar sentado com o relógio na mão — relógio de algibeira, chato, liso, de ouro fino, e a tampa, com o monograma gravado, aberta. Contemplava então o mostrador redondo, de porcelana, rodeado por uma dupla fileira de cifras árabes, pretas e vermelhas, e em cima do qual os dois ponteiros de ouro, enfeitados de suntuosos arabescos, apontavam em diferentes direções, enquanto o delgado ponteiro dos segundos, tiquetaqueando, dava pressurosas voltas à sua areazinha especial. Hans Castorp fixava-o, como para deter e esticar alguns minutos, na intenção de agarrar o tempo pela cauda. O minúsculo ponteiro saltitava pelo seu caminho, sem se importar com as cifras que alcançava, percorria, ultrapassava, deixava para trás, lá longe, voltava a demandar e alcançava de novo. Era insensível a objetivos, divisões e marcos. Deveria demorar-se por um instante no 60 ou pelo menos dar um pequeno sinal de que alguma coisa terminava ali. Mas, pelo jeito como passava por cima desse ponto assim como por qualquer outra risca não marcada, reconhecia-se que toda essa marcação e subdivisão do seu caminho eram apenas acessórias, e que o ponteiro se limitava a caminhar, a caminhar para frente... Diante dessa percepção, Hans Castorp tornava a abrigar o cronômetro no bolsinho do colete e abandonava o tempo à sua própria sorte.


MANN, Thomas. A montanha mágica. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. Tradução Herbert Caro.

26.4.18

Kant (relido)



Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.


In: FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.


20.4.18

trecho de "I sing the body electric"



O amor ao corpo do homem ou da mulher dispensa explicação, o corpo em si dispensa explicação,
o do homem é perfeito, o da mulher é perfeito.

The love of the body of man or woman balks account, the body itself balks account,
That of the male is perfect, and that of the female is perfect.


In: WHITMAN, Walt. The complete poems. Harmondsworth: Penguin, 1977.

*tradução minha

19.3.18

elegia 1938



Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

16.3.18

voa



em tempos de desumanidade no Brasil, eu abomino quem prefere as armas de metal. como disse Maiakovski, "Nosso arsenal é o canto. / Metal? São timbres que tinem".

hoje à noite, Antonio Cicero toma posse na Academia Brasileira de Letras. "alguém se reconhece poeta e decide dedicar-se à poesia", diz Cicero no livro "A poesia e a crítica", "a partir do momento em que se apaixona por um ou por vários poemas de verdade". a importância do cânone literário será o norte de seu discurso de posse, como antecipa a Folha de São Paulo em página inteira que também celebra a ótima coincidência de que, justo nessa sexta-feira, Marina Lima lança seu novo disco, que tem um título muito bonito, "Novas famílias".

graças ao querido Duda Leite, soube que o jornal oferece, na versão digital da matéria, essa playlist com canções de Cicero de diferentes épocas, da qual tenho a honra de fazer parte. fui dormir triste, mas não podia acordar mais feliz. apesar da distância física neste dia importante, saúdo meu grande amigo, a poesia e o lance do poema:

"Pisa sobre estas esplêndidas ruínas e,
se não há caminhos,
voa."

AN





11.3.18

novo clipe



"Era só você" é uma composição minha, faixa do disco "Rei Ninguém".

em nosso novo clipe, o diretor Luan Cardoso me faz voltar - com cor, sombra, luz e movimento - à praia irreal, que não é o Paraíso ou o Marahu, na ilha de Mosqueiro, em Belém, mas a praia inalcançável, ideal, que agora só existe na memória.

agradecimentos especiais ao Teatro da Rotina, que nos acolheu em uma noite fria de São Paulo.





AN