trecho da ótima entrevista de Augusto de Campos a J. Jota de Moraes, publicada originalmente no Jornal da Tarde, em 05 de outubro de 1985, sobre a edição brasileira de "A Year from Monday", de John Cage.
J. Jota de Moraes - Sabe-se que, mais tarde, você chegaria a entrar em contato direto com (John) Cage, em Nova York. Poderia nos contar como foi esse encontro?
Augusto de Campos - O contato com Cage começou, via epistolar, em 1973, quando terminei a primeira revisão da versão de Rogério (Duprat) e buscava a autorização para a edição brasileira. O poeta e músico Dick Higgins, que eu conhecera em 1968, forneceu-me o endereço. Higgins dirigia a editora de vanguarda Something Else Press, que publicou, em belíssimas impressões, livros de Gertrude Stein, Merce Cunninghan e Cage (Notations e uma seção do "Diário" em várias gamas de cor), assim como a Anthology of Concrete Poetry, com ampla representação dos concretos brasileiros. Mandei a Cage também alguns livros, como a Antologia Noigandres, Poetamenos e, mais tarde, Caixa Preta e Poemóbiles. Trocamos algumas cartas. Depois, em 1977, ele enviou para uma exposição do MAC um de seus trabalhos visuais, feito com o auxílio do artista gráfico Calvin Sumsion - Not Wanting to Say Anything About Marcel Duchamp (Não Querendo Dizer Nada Sobre Marcel Duchamp) -, oito folhas de plexiglás com letras serigrafadas formando uma espécie de aquário pré-holográfico. E, numa carta ao diretor do museu, pediu que, terminada a exposição, o seu poema-objeto me fosse entregue. Quando fui para a Europa em fins de 77 pensei em voltar por Nova York. Haroldo já estava em Yale. Escrevi ao Cage para tentar um possível encontro e ele, generosamente, se dispôs a nos receber, entre viagens, nos primeiros dias de março de 78 - "I would be glad to make dinner for you and your brother and wife (or wifes?)". Numa noite de inverno, no dia 3, lá estivemos, todos, mais Regina Vater e Alfredo Portillos. Um memorabilíssimo jantar, feito pelo próprio Cage, muita bebida, muito papo. Ele fez questão de fazer até o café, num coador de pano, à velha maneira brasileira, utilizando para ferver a água uma chaleira que apitava e para cuja música-de-ruídos chamou a nossa atenção. Um homem de grande sabedoria, humor e modéstia, que não falava sobre sua obra a não ser quando frontalmente perguntado e sempre com um pouco de blague. Sabendo que ele tinha composto músicas sobre textos de Cummings, e que este também morara em Greenwich Village, indaguei se tinha conhecido o poeta. Ele disse que sim, e que havia mostrado suas composições a Cummings, mas que este não se interessara muito por elas e que, na verdade, só conseguira fazer um pouco de amizade com Marion, mulher do poeta. Nenhuma pretensão. Ao sairmos, na noite fria, à procura de um táxi, tropeçando na neve, ele caminhava lépido à nossa frente, com um gorro engraçado, que tinha algo de cogumelo. "HAPPY NEW EARS!"- ele parecia estar dizendo todo o tempo, rindo, ridente. Falamos sobre Duchamp, Boulez, Gertrude Stein, Pound, poesia e música e muitas outras coisas. Lamentavelmente, não tomei nota de tudo o que conversamos naquela noite da mágica, da qual saímos meio alígeros, e de alegria e de álcool, todos "um pouco acima do chão".
CAMPOS, Augusto de. Música de Invenção. São Paulo: Perspectiva, 2007.