3.5.20

Canção da Estrada Aberta / Song of the Open Road



1.

A pé e de coração leve eu pego a estrada aberta,
Cheio de saúde, livre, o mundo diante de mim,
O longo caminho de terra diante de mim
levando-me a qualquer lugar aonde eu queira ir.

De agora em diante não peço a felicidade, eu mesmo sou felicidade,
De agora em diante não mais reclamo, não mais adio, não preciso de nada,
Estou farto de queixas internas, bibliotecas, críticas ressentidas,
Forte e alegre eu ganho a estrada aberta.

A ​t​erra​,​ isto me basta​,​
Não quero as constelações nem um pouco mais próximas,
Sei que estão muito bem onde estão​,​
Sei que bastam para aqueles que a elas pertencem.

(No entanto, carrego comigo meus antigos e deliciosos fardos,
Eu os carrego, homens e mulheres, eu os carrego aonde quer que eu vá,
Juro ser impossível livrar-me deles,
Eles são parte de mim e serei parte deles ​de volta.)

1.

Afoot and light-hearted I take to the open road,
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me leading wherever I choose.

Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,
Strong and content I travel the open road.

The earth, that is sufficient,
I do not want the constellations any nearer,
I know they are very well where they are,
I know they suffice for those who belong to them.

(Still here I carry my old delicious burdens,
I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,
I swear it is impossible for me to get rid of them,
I am fill’d with them, and I will fill them in return.)


WHITMAN, Walt. Leaves of grass. New York: The New American Library, 1958.

*tradução minha

13.2.20

tempo amigo





















Eu sempre gostei dos esquisitos. Como se sabe, "exquisitus", em latim, tem o sentido de "requintado". Quando criança, lembro que interessante mesmo aos meus olhos era o inusitado, o que fazia a diferença. Adorava as pessoas que usavam palavras que eu não conhecia, que se vestiam com personalidade, que quebravam as regras que os adultos me impunham etc. Desde que vi a Fernanda Takai no palco pela primeira vez, não resisto ao encanto de sua originalidade. É esquisita para além do que pode a língua portuguesa!

Há quem a compare com Nara Leão ou Rita Lee, mas, além de me parecer uma referência mais forte para os jovens dos anos 2000, como eu, a Fernanda é, com toda a sua doçura, radicalmente ela própria. No jeito de ser, de se mostrar e, sobretudo, no jeito de cantar. Por causa dela, descobri que, apesar de grave, havia doçura em minha voz. E que eu poderia, com a mesma suavidade cool de outros ídolos esquisitões, como João Gilberto e Chet Baker, cantar até rock and roll, se quisesse.

A memória da minha adolescência é inseparável das canções do Pato Fu. No primeiro violão que eu ganhei, aprendi a tocar "Canção pra você viver mais" e "Antes que seja tarde", meus hits nas rodas de amigos no recreio ou na saída da escola. Já tirei a prova dos nove com Fernanda e John: contamos nos dedos e, de fato, eu fui a todos os shows do Pato Fu em Belém! O mais marcante deles foi em um grande festival ao ar livre. Eu tinha 16 anos, mas pedi aos meus pais que assinassem uma autorização. Como era libertadora a sensação de ir sozinho ao show da minha banda esquisita preferida. É claro que choveu muito, se não chovesse não seria em Belém, mas eu pulava e dançava na lama mesmo assim, como se fosse Gene Kelly.

Quando compus a melodia que agora se chama "Pontal", pareceu muito claro que era o resultado de todas as tardes ouvindo Pato Fu depois da escola. Como eu já tinha cantado com a Fernanda duas vezes, uma em São Paulo, outra em Belém, pensei: "será que ela toparia escrever uma letra?" Uau, ela topou. "E se o John participasse da produção?" Uau, ele topou. Fiquei feliz e ansioso! Alguns dias antes de embarcar para a Europa, para a pequena turnê do meu EP "Coragem de Poeta", comprei os bilhetes e combinei com eles que voltaria de lá direto para Belo Horizonte. Cheguei em Minas de madrugada, três voos depois, constipado e com o chip do celular brasileiro perdido. Lembro que, antes de embarcar em Guarulhos para Confins, corri atrás da internet do aeroporto para avisar a Fernanda que, enfim, estava no Brasil e a caminho de Minas, mas que chegaria tarde. Ela foi tipo mãezona: "Boa viagem e juízo. Vá direto para o hotel, durma bastante de manhã e almoce algo leve ali por perto mesmo. A gente se vê às 14 horas." Obedeci, é claro!

(Corta para alguns dias antes.) Depois que o John topou participar da produção da faixa, o combinado foi que eu pré-produziria uma base com o STRR, que seria finalizada em BH. Por isso, em Belém, antes de viajar, corri ao estúdio para deixar gravados a voz guia e o teclado. Lembro que estava no Tiergarten, em Berlim, quando STRR e eu decidimos por WhatsApp, depois de muitas mensagens trocadas em diferentes cidades, que já tínhamos a base para encaminhar ao John. Fiz isso ali mesmo, no parque, com as mãos geladas e o coração quente.

(Pronto, posso voltar a Belo Horizonte.) Depois de fazer tudo como a Fernanda mandou, cheguei à casa deles às 14 horas. Naquela altura, o arranjo de "Pontal" já estava pronto. Antes de mostrar o resultado, John fez uma explanação consistente e bonita sobre suas ideias. Quando ele apertou o play, foi emocionante ouvir aquela guitarra, que tocou tanto em meus ouvidos outrora, a serviço de uma canção minha hoje — e, ainda por cima, segundo o ilustre guitarrista mineiro, com "uma pegada do Pará"!

Foi naquela tarde mesmo, depois de ouvirmos o arranjo, que Fernanda gravou sua voz. De noite, jantamos todos juntos. Aproveitei que um vinhozinho é bom para "curar" a timidez e perguntei várias curiosidades sobre o Pato Fu, tornando a ser aquele garoto que, na verdade, nunca saiu de mim. Eu continuo o mesmo fã, mas agora com a diferença de que "Pontal" existe e nos tornamos parceiros. Tempo amigo, você é legal comigo!

AN.

Ouça "Pontal" em todas as plataformas digitais: http://trato.red/pontal

28.11.19

poema / poem



POEMA

Enquanto o gato
trepava ao
topo da

prateleira
primeiro a pata
da frente

precavidamente
a traseira topou
em cheio

no vazio do
vaso de
flores


POEM

As the cat
climbed over
the top of

the jamcloset
first the right
forefoot

carefully
then the hind
stepped down

into the pit of
the empty
flowerpot


WILLIAMS, William Carlos. Death the Barber. Penguin Books: United Kingdom, 2018.

tradução minha

2.9.19

espelho / mirror



ESPELHO

Sou prata e exato. Não tenho preconceitos.
O que eu vejo eu engulo de imediato
Tal como é, sem amor ou desamor.
Não sou cruel, só real,
O olho de um pequeno deus, quadrilátero.
Quase todo o tempo eu penso na parede oposta.
É rosa, com manchas. Olhei tanto tempo
Que já é parte de mim. Mas pisca.
Faces e trevas nos dividem a todo momento.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em meus traços o que ela é de fato.
Depois volta-se para as mentiras das velas e da lua.
Vejo-a que retorna e reflito-a fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e mãos trêmulas.
Valho muito para ela. Vem e vai.
Toda manhã é sua face que substitui as trevas.
Ela afogou em mim uma menina, e em mim uma mulher
Velha se alça para ela dia após dia, peixe terrível.


MIRROR

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever you see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful.
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.


de Sylvia Plath

in CAMPOS, Augusto de. Retrato de Sylvia Plath como artista. Traduções de Augusto de Campos. Galileu Edições: Londrina, 2018.


30.7.19

o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem




mi
eu penso em béla bartók
eu penso em rita lee
eu penso no stradivárius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso
mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three


In FREITAS, Angélica. Rilke Shake. São Paulo: Cosac Naify, 2007.


10.7.19

as rosas com bolores



Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre da minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me


In LOPES, Adília. Antologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

10.6.19

Emílio ou Da educação



Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto.


SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

4.6.19

Lira e eu no programa Escala Musical, da TV Cultura






cisne



Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
— a presença do cisne?

Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e — humana —
é esplendor memória
e sangue.

E
resta
não o cisne: a
palavra
— a palavra mesmo
cisne.


In FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.

26.5.19

alba



I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
na carne.

II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
— e a primeira vez
é sempre.

III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.

IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!


In FONTELA, Orides. Poesia completa. São Paulo: Hedra, 2015.