21.12.18

Âmbar



Ava Rocha e Zé Manoel (piano) em "Âmbar" (Adriana Calcanhotto)




"tá tudo brilhando em mim"

18.12.18

felicidade



Felicidade é esse acaso
Que te fez o que és.
Nada queres dizer.
Nada deves a trabalho
Ou a dever.
Perverso
Brincas.
Criatura de um só dia
Absoluto
És festa
Serás luto.
És festa sonho carne frêmito.
Não mereces este prazer
Nem eu mereço teu amor:
Tudo entre nós é gratuito
E muito
E parte.
Cardumes de sol ao mar
Quase sem arte
Quero-te feliz.


In: CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.


16.12.18

happiness / felicidade



Happiness

So early it’s still almost dark out.
I’m near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They have on caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren’t saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other’s arm.
It’s early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs palely over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn’t enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


Felicidade

Tão cedo ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e as coisas que de manhãzinha
passam pela cabeça.
Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.
Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles tem uma mochila nos ombros.
Estão tão felizes
e não dizem nada, esses garotos.
Acho que se pudessem eles se dariam
os braços.
É cedo pela manhã,
e eles estão nessa juntos.
E avançam, lentamente.
O céu começa a clarear,
embora ainda sobre a água paire a lua pálida.
Tanta beleza que, por um instante,
morte e ambição, e até amor,
não cabem aqui.
Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, realmente,
de qualquer conversa sobre ela de manhã cedinho.


de Raymond Carver,
versão minha


14.12.18

Dar nome pra um gato / The Naming of Cats



Dar nome pra um gato ㅤ

Dar nome pra um gato não é brincadeira,
Não é dessas coisas normais de vocês;
Pode até parecer exagero, ou doideira,
Mas é pouco um só nome, ELES TÊM QUE TER TRÊS.
O primeiro é aquele de usar todo dia,
Bernardo, Ana Clara, Gabi ou Inês,
Madalena, Olga ou Sara, Eduardo e até Bia.
São nomes sisudos, são só sensatez.
Se você preferir, pode até ser mais chique,
Pra menino ou menina, os dois têm sua vez:
Dante, Ágata, ou Íris, Urraca ou Manrique —
Mas nomes sisudos, e só sensatez.
Só que os gatos precisam de um nome sem par
Um nome mais raro, mais conceituado,
Ou não sobe seu rabo, perpendicular,
Fica mole o bigode, e o orgulho, acabado!
De nomes assim eu te mostro uma renca,
Mungustão, Quaximol, Filiréu ou Jorlato,
Seja Bombalurina, ou talvez Chelimenca —
São nomes que sempre serão de um só gato.
Mas acima de tudo outro nome sobrou,
Um nome afundado em mistérios à beça,
O nome que o homem jamais desvendou —
MAS É O GATO QUE SABE, e ele nunca confessa.
Quando um gato se perde na meditação,
 O motivo, eu te digo, não muda e não some:
Sua mente está presa na contemplação
 Da ideia, da ideia, da ideia do nome:
Do inefável efável
Seu efinevável
Profundo, insondável e excêntrico Nome. ㅤ


The Naming of Cats

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey-
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter --
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum -
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover --
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.


ELIOT, T. S. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Organização, tradução e posfácio de Caetano W. Galindo.


9.12.18

s/título



dois ritmos em disputa
o mar e meu pensamento
o mar maior
logo vence a luta
e me sento lento lendo

no imenso silêncio
que se abre por dentro
o canto do pássaro
o canto do vento
o tempo desacelerando
momento a momento

a Terra é redonda, comprovo
há céu por todo lado
tudo termina e começa de novo
na velocidade da onda

pego a estrada
e volto à metrópole
(depois de oito dias)
eu que de mais nada precisava
além de conchas e quilhas
estou outra vez cheio
de quinquilharias

quando um mar de afazeres
invadir a hora pequena
trouxe na memória uma cena
pra acalmar minha ira:
deixo a onda passar
enterrado na areia
como vi fazer
a tatuíra


SILVESTRIN, Ricardo. Metal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2013.

12.11.18

Como Adão de manhã cedinho / As Adam early in the morning



Como Adão de manhã cedinho

Como Adão de manhã cedinho,
saindo da vegetação renovado pelo sono,
contemplem-me enquanto passo, ouçam minha voz, aproximem-se,
toquem-me, toquem a palma da mão em meu corpo enquanto passo,
não temam meu corpo.


As Adam early in the morning

As Adam early in the morning,
Walking forth from the bower refresh'd with sleep,
Behold me where I pass, hear my voice, approach,
Touch me, touch the palm of your hand to my body as I pass,
Be not afraid of my body.


In: WHITMAN, Walt. The complete poems. Harmondsworth: Penguin, 1977.

*tradução minha

17.8.18

HOmmage (trecho)



5

Nova sensibilidade explodindo a velha sintaxe conformada/conformista.

"SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI" e o strip-tease do humanismo do assim chamado "homem de bem" que proclama satisfeito "bandido bom é bandido morto". Presuntos a granel, aumento dos locais de desova, Esquadrão da Morte enquanto justiceiro de Deus e da Pátria e da Família. Pena de Morte e decepamento da cabeça e corte do caralho para animar a primeira página deste tecido de horrores que é o jornal "O POVO".

O "homem de bem" é um amoral nato.


SALOMÃO, Waly. Armarinho de miudezas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

16.7.18

autobiografia de todo mundo



É uma coisa estranha os endereços onde você mora. Quando mora num lugar você o conhece tão bem que é como a identidade uma coisa é tanto uma coisa que essa coisa não poderia nunca ser nenhuma outra coisa e então você mora em algum outro lugar e anos mais tarde o endereço que era aquele endereço era um nome como seu próprio nome e você o dizia como se não fosse um endereço mas como alguma coisa que fosse viva e então anos mais tarde você não sabe qual era o endereço e quando você diz isso não é mais um nome mas alguma coisa de que você não consegue se lembrar. Isto é o que faz a sua identidade não uma coisa que existe mas uma coisa de que você ou se lembra ou não se lembra.


STEIN, Gertrude. Autobiografia de todo mundo. São Paulo: Cosac Naify, 2010. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.

23.6.18

o homem de neve / the snow man



O homem de neve

Há que se ter mente hibernal
Para observar a geada e os galhos
Dos pinheiros encrostados de neve;

E estar ao frio há muito tempo
Para ver os zimbros com beirais de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
Em nenhuma aflição ao som do vento,
Ao som de umas poucas folhas,

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que venta no mesmo lugar árido

Para o que ouve, que escuta na neve,
E, ele próprio nada, contempla
Nada que não esteja ali e o nada que lá está.


The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.


In: STEVENS, Wallace. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


8.5.18

paixão do olhar



não sei dirigir, não sei andar de bicicleta. nunca quis nem pretendo ter um carro. adoraria ter uma bicicleta, mas admito que, por um lado, a covardia da infância persiste, e por outro, infelizmente, é sabido que as cidades brasileiras ainda parecem campos minados contra esse tipo de transporte. o fato é que na maioria das vezes me desloco ou caminhando ou utilizando o transporte público. quando estou em uma cidade que não conheço, para longas distâncias prefiro os transportes de superfície, para não perder nenhum detalhe e compreender melhor a geografia do lugar. ontem e hoje, aproveitando que estou em Belém, flanei por ruas onde nunca mais havia estado dessa forma. as caminhadas tácitas, onde quer que eu esteja, além de um bom exercício, são um ótimo momento para tomar decisões — das práticas às abstratas, como tentar organizar meu pensamento sobre algum assunto ou encontrar soluções para canções não terminadas. nesse sentido, desconfio que não há coisa melhor para o esclarecimento do que exercitar o olhar com os pés no chão.

AN