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9.1.17

A estrela



Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
      coberto de oceanos e montanhas
      é menos que um grão de poeira
      se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                 quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                querido amigo,
                e esses teus olhos azul-safira
                com que me fitas



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. In: _____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

11.12.16

A morte de Clarice Lispector



Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós


GULLAR, Ferreira. Na vertigem do dia. In: _____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.


9.7.14

A propósito do nada



sou
      para o outro
este corpo esta
      voz
sou o que digo
      e faço
      enquanto passo

mas
      para mim
só sou
      se penso que sou
enfim
se sou
      a consciência
      de mim

e quando
      vinda a morte
      ela se apague
serei o que alguém acaso
      salve
         do olvido

já que
         para mim
         (lume apagado)
nunca terei existido


GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.


26.10.11

Um pouco antes



Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
                    pensa
                          ao veres no horizonte
                          sobre o mar de Copacabana
                                                          uma nesga azul de céu
                    pensa que resta alguma coisa de mim
                    por aqui
                                Não te custará nada imaginar
                                que estou sorrindo ainda naquela nesga
                                azul celeste
                                pouco antes de dissipar-me para sempre.




GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.


18.11.10

Anoitecer em outubro



A noite cai, chove manso lá fora
       meu gato dorme
               enrodilhado
                        na cadeira

Num dia qualquer
             não existirá mais
             nenhum de nós dois
para ouvir
             nesta sala
a chuva que eventualmente caia
             sobre as calçadas da rua Duvivier



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.