9.12.15

The last interview and other conversations (excerto)



Günter Gaus - Eu gostaria de perguntar se você sente falta do período da Europa pré-Hitler, que nunca mais existirá. Quando você vem para a Europa, o que, em sua opinião, permanece e o que foi irremediavelmente perdido?

Hannah Arendt - A Europa do período pré-Hitler? Eu não sinto falta dela, devo lhe dizer. O que permanece? A língua permanece.

Gaus - E isso é muito importante para você?

Arendt - É muito importante. Eu sempre me recusei, conscientemente, a perder a minha língua materna. Eu sempre mantive uma certa distância do francês, que eu falava muito bem, assim como do inglês, em que eu escrevo hoje em dia.

Gaus - Eu queria lhe perguntar isso. Agora você escreve em inglês?

Arendt - Eu escrevo em inglês, mas nunca perdi o senso de distância. Existe uma diferença tremenda entre a sua língua materna e outra língua qualquer. Eu sempre encarei isso de uma forma extremamente simples: eu sei uma parte considerável da poesia alemã de cor; os poemas, de alguma forma, estão sempre presentes na minha mente. Eu nunca poderei fazer isso outra vez. Eu faço coisas em alemão que eu não permitiria a mim mesma fazer em inglês. Quer dizer, às vezes eu faço em inglês também, porque me tornei audaciosa, mas em geral eu mantive uma certa distância. A língua alemã é o essencial que permaneceu e que eu, conscientemente, preservei.

Gaus - Mesmo nos períodos de amargura?

Arendt - Sempre. Eu pensava comigo mesma, o que se pode fazer? Não foi a língua alemã que enlouqueceu. E, segundo, não existe substituição para a língua materna. As pessoas podem esquecer suas línguas maternas. Isso é verdade - eu já vi ocorrer. Existem pessoas que falam a nova língua melhor do que eu falo. Eu ainda falo com um sotaque muito pesado, e eu muitas vezes falo de forma não idiomática. Eles podem fazer todas essas coisas corretamente. Mas fazem-no numa linguagem onde os clichês se sucedem, porque a produtividade que podemos lograr em nossa própria língua é cerceada quando a esquecemos.

Gaus - Os casos em que a língua materna foi esquecida: você tem a impressão de que foram resultado da repressão?

Arendt - Sim, muito frequentemente. Eu tenho visto isso ocorrer com as pessoas como resultado de choques. Você sabe, o que foi decisivo não foi o ano de 1933, pelo menos não para mim. O que foi decisivo foi o dia em que ficamos sabendo de Auschwitz.


In: ARENDT, Hannah. The last interview and other conversations. Brooklyn, NY: Melville House Publishing, 2013.

Tradução do inglês feita por mim e Sandra Alvarez.

Um comentário:

Mariana Magalhães disse...

Freud diz, no seu último ano de vida, quando obrigado a sair da Áustria para Londres que o mais difícil é deixar de falar e escutar a sua língua materna.